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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Fazer o certo não deve depender de acordos

A Conferência do Clima chegou ao fim. Praticamente tudo o que se pretendia deliberar desta vez foi adiado para o final de 2010, quando um novo encontro de lideranças mundiais deverá acontecer na Cidade do México. Maldosamente, alguns já apelidam o encontro de Copenhague de “Conferência do Anticlímax”.

Houve, de fato, a frustração de muitas expectativas alimentadas desde a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos – esperava-se que o democrata fosse mais sensível às questões ambientais do que o seu antecessor. A China também parecia mais disposta a negociar do que na época de Quioto, quando se manteve refratária a qualquer possibilidade de acordo. O fato de a Conferência ter chegado ao fim sem metas claras ou compromissos assumidos jogou um balde de água fria nos mais otimistas.

Porém, temos de admitir que esse encontro teve o mérito de reunir as autoridades políticas mais relevantes do planeta em uma ampla discussão sobre a necessidade de impedir que a temperatura global se eleve mais do que dois graus centígrados. E o motivo pelo qual o consenso ainda não foi possível é bastante justo e razoável: existem dificuldades reais para se conciliar progresso econômico e conservação ambiental.

Não se trata de demonizar esta ou aquela nação. Ninguém está disposto a sacrificar a recuperação pós-crise ou a oportunidade de melhorar as condições de vida de seu próprio povo em nome da prevenção de problemas futuros. Na hora de defender os interesses nacionais, líderes tão distintos como Barack Obama, Hugo Chávez e Ângela Merkel revelam empenho e ardor idênticos.

E, por mais que os pesquisadores do clima se empenhem em demonstrar que as consequências do aquecimento global podem ser desastrosas, o fato é que existem dúvidas muito plausíveis quanto à verdadeira extensão dos possíveis danos. Também não está completamente definida a forma de as ações humanas interferirem na ocorrência das mudanças climáticas. A questão é: podemos desconsiderar necessidades atuais e palpáveis em nome de riscos hipotéticos?

Não existe uma resposta simples para esta pergunta. A única coisa que se pode dizer, com certeza absoluta, é que será necessário encontrar um meio de crescer com sustentabilidade, aliando aprumo tecnológico, conscientização e planejamento. Desse modo, será possível equacionar os diferentes interesses.

Para o Brasil, a participação em Copenhague foi essencialmente positiva, sobretudo no que diz respeito à consolidação da nossa imagem no mundo. Por um lado, ganhamos prestígio com a nossa disposição em cooperar com medidas globais e com a apresentação de metas de redução das emissões nacionais de gases de efeito-estufa – até 2020, nossas emissões serão reduzidas em torno de 36,1% a 38,9%.

Por outro, tivemos a chance de mostrar que a questão ambiental faz parte da nossa agenda política há bastante tempo: em seu pronunciamento, o presidente Lula ressaltou que as fontes limpas e renováveis predominam na matriz energética nacional, pois mais de 85% da energia elétrica consumida no País é de origem hidrelétrica, somos pioneiros no uso de biocombustíveis e possuímos a maior frota mundial de automóveis com motor flex.

Nosso calcanhar-de-aquiles continua sendo a derrubada de mata nativa, principalmente na região amazônica. O desmatamento responde hoje por mais da metade das emissões de gases de efeito-estufa no País, e conter essa devastação é fundamental. O Brasil já mostrou que está disposto a assumir a missão de conter 85% do desmatamento amazônico até 2020. A meta é ambiciosa e de difícil cumprimento, mas absolutamente necessária.

É importante salientar que, ao contrário de outros emergentes, o Brasil vem fazendo sua lição de casa no que diz respeito à minimização dos impactos ambientais resultantes da atividade produtiva. A história de Cubatão, cidade que um dia personificou a poluição e a degradação ambiental, ilustra muito bem esse amadurecimento brasileiro.

No início da década de 80, as fontes industriais de Cubatão emitiam 363 mil toneladas/ano de poluentes particulados e gasosos. As consequências eram graves: cerca de 60 km² da vegetação da Serra do Mar praticamente desapareceu, acarretando erosões nas encostas, deslizamentos e inundações, e a contaminação da água, do ar e do solo traduziu-se em problemas sérios de saúde, com quinze vezes mais ocorrências de anencefalia em Cubatão do que em outras cidades do Brasil.

Mas o símbolo mais forte da degradação ambiental de Cubatão foi o incêndio de Vila Socó, provocado pelo estouro de oleoduto em fevereiro de 1984. Na tragédia, uma centena de pessoas morreu.

Para mudar essa triste realidade, o polo industrial de Cubatão investiu um bilhão de dólares em equipamentos e instrumentos de controle e medição de alta sofisticação tecnológica. O esforço valeu a pena, pois, 25 anos depois da implantação do Programa de Recuperação Ambiental, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) da Secretaria do Meio Ambiente pôde anunciar a redução de 99% nas emissões de materiais particulados, de 6% nas emissões de hidrocarbonetos e de 99% nas emissões de fluoretos. Já o óxido de enxofre e a amônia, causadores da chuva ácida que matava a vegetação, foram reduzidos em 72,17% e 99,43%, respectivamente.

Além de ser um exemplo da incrível capacidade de recuperação da natureza, o caso de Cubatão evidencia duas coisas muito importantes: a primeira delas é que a mobilização do poder público, da iniciativa privada e da sociedade tende a produzir bons resultados; e a segunda é que o trabalho ambiental deve ter viés técnico e pragmático.

Não dependemos de protocolos internacionais para fazer o que é certo. Por isso, independente do sucesso ou do fracasso dos acordos globais, podemos ter ações eficientes e proativas – exatamente como vem demonstrando, com sucesso e competência, o empresariado brasileiro que incorporou a sustentabilidade aos seus métodos e processos.

Eduardo Pocetti é CEO da BDO, quinta maior empresa do mundo nas áreas de auditoria, advisory e tax.


http://www.administradores.com.br/noticias/fazer_o_certo_nao_deve_depender_de_acordos/28925/

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