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domingo, 3 de julho de 2011

Sol em Maringá é pouco aproveitado

O Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Maringá (UEM) vai oferecer no segundo semestre deste ano, em caráter experimental, a disciplina de Engenharia e Tecnologia Solar.

Uma proposta inovadora, que colocará os estudantes a par da necessidade gradual da substituição dos combustíveis fósseis – com reservas limitadas – por fontes renováveis de energia. A disciplina será ministrada pelo professor Alexandre Marconi de Souza da Costa, doutor em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para o professor, a energia solar pode desempenhar um papel de destaque por sua abundância e distribuição mais uniforme na natureza, quando comparada com outras energias renováveis, entre elas eólica, hidroelétrica, biomassa, geotérmica e oceânica.

Estudos revelam que, aproveitando os recursos tecnológicos disponíveis, é possível obter do sol 23.000 Terra Watts (TW) por ano, enquanto a demanda anual de energia, em todo o mundo, não chega a 16TW. Isso significa que a energia solar tem a oferecer 1.500 vezes mais do que a civilização atual precisa. Contudo, Costa diz que essa fonte de energia é pouco explorada em Maringá e em todo o Brasil.

O curso oferecido pela UEM, então, viria a ser um dos primeiros esforços para mudar essa realidade. Se os estudantes de engenharia, matriculados no curso, vão assimilar o conteúdo e colocar o conhecimento em prática, só o tempo vai dizer.

Costa, por sua vez, se encarrega de fazer a propaganda dos benefícios da energia solar, entre os quais a diminuição do aquecimento global. Um pouco de seus conhecimentos na área o doutor da UEM compartilha aqui com os leitores de O Diário.

Alexandre Costa

"A energia eólica demanda grandes turbinas e isso tem impacto ambiental, como ruído e a morte de aves que se chocam contra as pás. Já o uso da energia solar não tem impacto ambiental’’.

"O grande gargalo da energia solar é o custo da conversão dela diretamente em eletricidade, a questão fotovoltaico, que é um processo caro. A mesma questão vale para o carro elétrico".

 

O Diário - Em comparação com outras fontes de energia, a solar é de fato a mais abundante?

Alexandre Costa - Aproveitando as tecnologias disponíveis atualmente, poderíamos extrair do sol 23.000 Terra Watts (TW) por ano. Para você ter uma ideia, a demanda mundial de energia, atualmente, é de 16TW por ano. A biomassa, como o bagaço de cana, se bem aproveitada, renderia 6 TW por ano, enquanto a energia eólica, se fôssemos aproveitar todo seu potencial, geraria de 25 a 70 TW por ano. É muito pouco perto do que o sol tem a nos oferecer.

O Diário - A energia solar pode ter, num futuro próximo, papel fundamental no abastecimento?

Alexandre Costa - Pode. Nenhuma outra fonte de energia é tão abundante. Necessariamente, não tem como diminuir o que o sol pode fornecer de energia por ano. E as reservas de combustíveis fósseis são esgotáveis. De carvão temos 900 TW, de urânio de 90 a 300 TW e, de petróleo, de 240 TW.

 

O Diário - As energias solar e eólica são consideradas as mais limpas. Ambientalmente, qual das duas leva vantagem?

Alexandre Costa - A energia eólica demanda grandes turbinas e isso tem um certo impacto ambiental, como problemas de ruídos e a morte de aves que se chocam contra as pás. Já o uso da energia solar não tem nenhum impacto ambiental. Se você pensar bem, o que manteve a vida no planeta até hoje foi o sol, então, não há efeito nocivo. Mas o impacto da energia eólica no meio ambiente é bem menor do que a queima de carvão ede combustíveis fósseis como a gasolina, por exemplo.

O Diário - O Brasil aproveita a energia solar como deveria?

Alexandre Costa - Não aproveita. Antes do acidente nuclear do Japão, nos congressos que participei ouvia-se falar muito que os governos investiriam em energia nuclear. No Brasil, falava-se em expansão das usinas nucleares para o Nordeste. Mas, depois do acidente nuclear, acredito que o investimento será maior em energia eólica.

 

O Diário - Se a energia solar é a menos nociva ao meio ambiente, o que impede a exploração em massa dessa fonte de energia?

Alexandre Costa - O grande gargalo da energia solar é o custo da conversão dela diretamente em eletricidade, a questão fotovoltaico, que é um processo que ainda é caro. A mesma questão vale para o carro elétrico, porque as baterias que movem o carro tem um custo bastante elevado. Hoje, o grande uso dessa fonte de energia está no coletor solar, para aquecer a água do banho nas residências. Mesmo nesse sentido, falta incentivo do governo para uso também nas classes mais baixas. Mas a menina dos olhos de quem trabalha com energia solar é o fotovoltaico. O problema é o custo elevado dos materiais empregados, que não são muito abundantes na natureza.

 

O Diário - O que está sendo feito para abaixar esse custo?

Alexandre Costa - Pesquisadores estão estudando meios de substituir o silício, que é o material mais usado hoje nos painéis fotovoltaicos, por materiais sintéticos.

 

O Diário - Quanto tempo ainda vai levar para a energia solar se tornar mais popular?

Alexandre Costa - Já está ficando mais popular, porque na Europa o pessoal tem utilizado bastante. Mas acho que o grande impulso virá quando a China, que é um dos maiores consumidores de energia, passar a substituir o carvão deles pela energia solar. Eles têm estudos na área, mas estão preferindo o que é mais fácil no momento.

O Diário - Qual seria o ganho para a sociedade num cenário em que o uso da energia solar fosse predominante?

Alexandre Costa - A questão do impacto ambiental, porque a energia solar demanda menos água para a produção de energia e gera bem menos CO2, na comparação com os combustíveis fósseis. Contribuiria para a redução do aquecimento global.

O Diário - Como está Maringá nessa questão?

Alexandre Costa - A gente tem algumas fábricas que produzem os aquecedores solares, já utilizados em algumas residências para aquecer a água do banho. Também temos algumas iniciativas de produzir aquecedores solares com materiais mais baratos, que estão sendo apresentados em feiras tecnológicas. Mas Maringá ainda está engatinhando nisso, há muito por fazer.

O Diário - O senhor fez alguns de seus estudos nos Estados Unidos. Como está a questão por lá?

Alexandre Costa - Fui para San Diego para completar meu doutorado e, acompanhando as notícias na mídia, percebi que o Estado que lidera a onda verde nos Estados Unidos é, justamente, a Califórnia . Tanto é que as novas legislações ambientais são implantadas primeiro na Califórnia para depois serem levadas ao resto do país. O aproveitamento de energias limpas por lá é bem interessante.

O Diário - O que os Estados Unidos fazem que o Brasil não faz? Que exemplos podemos seguir?

Alexandre Costa - Uma das coisas em que o Brasil está bem atrás dos Estados Unidos, por exemplo, é na taxação dos veículos híbridos, que utilizam tanto a energia elétrica quanto combustíveis fósseis [gasolina, etanol ou diesel]. No Brasil, nossa legislação ainda sobretaxa esse tipo de veículo, enquanto lá fora eles estão reduzindo bastante os impostos, tudo para incentivar o usuário a utilizar. Os veículos híbridos aqui no Brasil são sobretaxados igual aos carros de luxo, com motores 2.0 ou acima. Considero isso uma falta de visão do governo.

O Diário - Fale um pouco da disciplina que o senhor ministrará, de onde partiu a ideia?

Alexandre Costa - É primeira vez que a Universidade Estadual de Maringá ministra essa disciplina. Na verdade, a ideia partiu de estudos que fiz sobre energia solar ao ministrar a disciplina de refrigeração e ar-condicionado. O sol tem efeito bastante importante na parte de conforto térmico. É preciso estudar o quanto de energia solar é incidido no ambiente para dimensionar o ar-condicionado que você precisa em sua sala. Comecei a estudar energia solar em 2004, então já vai completar sete anos.

 

O Diário - Alguma outra universidade ou faculdade do Paraná tem proposta semelhante?

Alexandre Costa - A Unila [Universidade Federal da Integração Latino-americana], de Foz do Iguaçu, terá um curso de engenharia todo voltado para energia solar. O propósito aqui [na UEM] é dar uma noção ao aluno do potencial do uso da energia solar. A ideia é capacitar o estudante a quantificar o quanto de energia solar ele vai obter e, com as tecnologias atuais, qual vai ser o aproveitamento desse total obtido.

O Diário - Há mercado para profissionais especializados nessa área de estudos?

Alexandre Costa - Essa área é carente de pessoal especializado, não só na parte de coletor solar, que é a principal aplicação, mas também na parte de fotovoltaica, que é a conversão da energia solar em eletricidade. No Brasil, a principal aplicação é o coletor solar, que consiste em aquecer a água de seu banho sem a necessidade de energia elétrica. Nos países mais desenvolvidos, o esforço é para converter diretamente a energia solar em eletricidade.

O Diário - Como tem sido a procura pela disciplina de Engenharia e Tecnologia Solar?

Alexandre Costa - Depois que eu anunciei no site da universidade, apareceu uma demanda boa de estudantes de outros cursos. Como o enfoque será na parte de cálculo e dimensionamento, estou priorizando os alunos da área de exatas, como física e matemática, e de engenharias. Serão duas horas semanais, a partir do segundo semestre.

 

http://maringa.odiario.com/maringa/noticia/441113/sol-em-maringa-e-pouco-aproveitado/

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