Tiago Reis, para o Procel Info
Minas Gerais – A eficiência energética pode ser uma grande aliada das pequenas e médias empresas do Brasil. Num cenário de retração econômica, decorrente da pandemia da Covid-19, em que várias atividades comerciais estão com operação reduzida ou paralisadas, a gestão energética pode significar a sobrevivência ou a falência de pequenos negócios. Visando fomentar a eficiência energética para este segmento, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) promoveu uma série de
workshops para estimular a adoção de iniciativas para a redução do consumo de energia neste segmento. Com dois eventos realizados, um em março (
veja aqui) e outro em abril (
veja aqui), os encontros virtuais contaram com a participação de especialistas de diversos setores, que apresentaram alternativas para a implementação de normas e como obter crédito para a adoção de soluções para tornar o consumo de energia elétrica mais eficiente nesses negócios.
Nos dois eventos já realizados, representantes do Banco Interamericano para o Desenvolvimento (BID), da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco), da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e de bancos de fomento apresentaram oportunidades de negócio e financiamento para projetos de eficiência energética em pequenas e médias empresas.
Para a presidente do CEBDS, Marina Grossi, a eficiência energética é uma das soluções mais baratas e deve ser a primeira a ser abordada para se alcançar a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil perante o Acordo de Paris. Para a executiva, a adoção da eficiência energética e as normas, como a ISO 50.001, além dos impactos econômicos, podem trazer também inúmeros benefícios ambientais. Por isso, destaca Grossi, a entidade busca contribuir para a implementação de soluções de negócios com foco na redução de consumo energético, principalmente as PMEs, segmento econômico bastante afetado pela crise da pandemia. "A gente fez um
estudo sobre a eficiência energética no Brasil, mostrando que poderíamos ser mais ambiciosos nessa questão da eficiência energética, mais ambiciosos do que estava lá na nossa NDC do Acordo de Paris. Isso porque é uma das soluções mais baratas e, dentre as nossas várias soluções, ela deve ser a primeira abordada, e a gente tem que ter uma ideia do potencial dela. Então, a gente fez uma proposta, sugiro que todos vocês leiam também esse documento, porque ele fala também da contribuição social que isso representa, e isso é muito importante em tempos de pandemia, saber qual é o impacto social da eficiência energética", afirmou Marina.
Especialistas consideram que a capacitação constante e o conhecimento do mercado e do ambiente regulatório são fundamentais para uma PME obter êxito na gestão do seu consumo energético
Já para o presidente da Abesco, Frederico Araújo, a implementação de medidas de eficiência energética para as pequenas e médias empresas é um fator primordial neste momento. Com atividades comerciais em constante 'abre e fecha', um melhor controle sobre o consumo energético representará maior competitividade e força de recuperação quando houver uma retomada econômica mais robusta. Para ele, a implementação de normas, como a ISO 50.001, pode auxiliar esses negócios, já que essa norma de gestão de energia não é restrita somente às industrias, mas a qualquer tipo de organização. "Entre as 16 maiores economias do mundo, o Brasil ocupa a penúltima posição em questões ligadas à eficiência energética (EE). Nossa economia se volta muito mais à produção de energia renovável do que à promoção de padrões de eficiência. Além do pouco conhecimento de consumo nas empresas, há a baixa adesão à ISO 50.001, que estabelece diretrizes de desempenho energético. Então, considero que a eficiência energética deve estar na estratégia do negócio, já que a energia elétrica é uma das variáveis diretamente relacionadas ao custo das empresas", destaca Frederico Araújo.
O presidente da Abesco revelou que o potencial de economia de energia somente no setor do comércio é de cerca de R$ 2,4 bilhões por ano, o que equivale a aproximadamente 18% da geração de uma usina hidrelétrica como a de Belo Monte. Entretanto, o especialista destaca que a falta de conhecimento e uma cultura de eficiência energética entre as PMEs acabam criando uma barreira invisível para uma maior aplicação de soluções para otimização do consumo de energia elétrica nesses negócios. "Fora a questão do aumento de gastos com energia, as empresas sofrem com a falta de informações técnicas e têm dificuldades em acompanhar a evolução tecnológica na área de eficiência energética e energias renováveis. Com isso, permanecem com máquinas e equipamentos obsoletos, que as impedem de avançar de forma mais sustentável e positiva", afirmou.
Convidado a apresentar a visão do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Morgan Doyle, representante da instituição no Brasil, ressaltou que existe uma necessidade urgente de tornar mais acessível as certificações de consumo energético, como a ISO 50.001. Para o representante do BID, esse é um instrumento de muita importância para enfrentar desafios ambientais e econômicos, especialmente para pequenas e médias empresas que foram afetadas pela pandemia.
Também representando uma instituição internacional, Alessandro Amadio, da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), destacou que a eficiência energética é um investimento de baixo custo e retorno rápido. "A eficiência energética é uma atividade que as empresas podem implementar com esforço modesto e ter um resultado muito interessante", disse.
Amadio destacou que no Brasil, em todos os segmentos, a adoção da ISO 50.001 é incipiente. Para ele, isso ocorre principalmente pela falta de conhecimento, já que o foco de muitas empresas ainda está na produção e não na eficiência. Ele lembrou que, em muitos casos, existem financiamentos para a implementação de soluções mais eficientes, mas pode haver desconhecimento. Assim, essas práticas não são adotadas, aumentando a ineficiência energética e operacional. Ele sugere, apesar do momento atual de incertezas, que as empresas, principalmente as menores, priorizem o planejamento e a capacitação dos colaboradores sobre as melhores práticas para a utilização da energia elétrica.
'A eficiência energética é uma atividade que as empresas podem implementar com esforço modesto e ter um resultado muito interessante', afirma representante das Nações Unidas
Opinião semelhante tem Frederico Araújo, da Abesco. Para ele, somente a disseminação do conhecimento pode criar o hábito e a cultura da eficiência energética no Brasil. "O conhecimento não pode ficar concentrado no indivíduo. É preciso implementar uma prática organizacional que tenha continuidade e integre a estratégia de gestão. Hoje notamos que o mercado sofre com a não existência de indicadores de eficiência e com a falta desse olhar das empresas de médio e pequeno porte sobre a necessidade da melhoria contínua do desempenho energético como fator de competitividade", ponderou.
Reunindo representantes da Aneel, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), o webinar promovido pela CEBDS também debateu as oportunidades de financiamento para projetos de eficiência energética de pequenas e médias empresas. Atualmente, mais da metade das instituições financeiras de desenvolvimento têm linhas específicas para o financiamento de projetos de eficiência energética. Entretanto, mesmo com juros mais baixos que linhas de crédito tradicionais, muitos recursos ainda ficam represados por falta de conhecimento dessas formas de financiamento.
A íntegra dos dois workshops pode ser acompanhada nestes links: Webinar 01 - "
Eficiência Energética para pequenas e médias empresas". Webinar 02 - "
Eficiência Energética para Pequenas e Médias Empresas: oportunidades em financiamento".
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