A eletrificação avança — e a integração passa a ser o novo desafio
O setor elétrico brasileiro entrou em uma fase em que o crescimento da oferta já não explica sozinho os movimentos mais importantes do mercado. A expansão da geração distribuída, a abertura do mercado, o crescimento de novas cargas e a necessidade de maior flexibilidade estão colocando a rede, os modelos de operação e os mecanismos de mercado no centro das decisões.
Nesta semana, esse movimento ficou particularmente evidente: a ANEEL adiou a incorporação da resposta da demanda aos modelos computacionais de formação de preços; a EPE mostrou o avanço da geração distribuída no mercado de distribuição; e um novo leilão de transmissão foi confirmado com R$ 8,9 bilhões em investimentos.
No cenário internacional, a IEA sintetizou a transformação em dois novos estudos: estamos entrando em uma “Era da Eletricidade”, enquanto as redes precisam ser modernizadas para acompanhar essa mudança.
1. Mercado em Movimento
ANEEL adia integração da resposta da demanda aos modelos de formação de preços
A ANEEL decidiu, em 22 de setembro, adiar a aprovação da representação do Programa de Resposta da Demanda na cadeia de modelos computacionais utilizada na operação do sistema e na formação do preço da energia.
A decisão não significa abandono do mecanismo. O ONS e a CCEE terão 90 dias para aperfeiçoar os mecanismos de divulgação e transparência do programa e deverão continuar os estudos necessários para sua futura representação nos modelos.
O principal obstáculo identificado foi computacional. Segundo as análises apresentadas à Agência, a inclusão da resposta da demanda poderia aumentar a complexidade e o tempo de processamento do DESSEM, em um ambiente operacional que já apresenta maior complexidade e maior frequência de acionamentos de contingência.
O episódio é relevante porque evidencia uma questão que tende a ganhar importância: não basta criar um recurso de flexibilidade; é necessário incorporá-lo adequadamente aos modelos que coordenam a operação e formam os preços.
A decisão ocorre poucos dias depois de a EPE estimar em 8,8 GW o potencial técnico de resposta da demanda no Brasil.
2. Transmissão e Infraestrutura
ANEEL confirma novo leilão de transmissão com R$ 8,9 bilhões em investimentos
A ANEEL aprovou o edital do Leilão de Transmissão nº 4/2026, marcado para 30 de outubro, na B3, em São Paulo.
O certame prevê oito lotes em sete estados, com 1.866 km de novas linhas e seccionamentos, continuidade de 483 km de linhas existentes e 12.694 MVA de capacidade de transformação. O investimento estimado é de R$ 8,9 bilhões.
Os empreendimentos serão instalados na Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Rondônia e São Paulo. Os prazos previstos para conclusão variam de 42 a 60 meses.
O leilão reforça uma característica que vem aparecendo nas últimas edições do Panorama: a expansão da geração precisa ser acompanhada pela expansão da infraestrutura que permite transportar, conectar e controlar a eletricidade.
Esse aspecto ganha ainda mais importância diante do crescimento da geração solar, dos novos consumidores livres e de cargas de grande porte.
Fonte: ANEEL.
Leilão de Transmissão nº 4/2026 — ANEEL
Leilão de Transmissão nº 4/2026 — ANEEL
3. Distribuição e Mercado Livre
MMGD poderá representar 21,2% do mercado cativo em 2026
A EPE publicou a edição 2026 do Painel Mercado de Distribuição, trazendo dados atualizados sobre consumo, mercado cativo e livre, geração distribuída e perdas na distribuição.
Segundo as informações fornecidas pelas distribuidoras, a energia injetada pela micro e minigeração distribuída (MMGD) cresceu 41,8% em 2025, equivalente a 16,2 TWh adicionais.
Para 2026, as distribuidoras projetam crescimento de mais 18,1%, ou aproximadamente 10 TWh.
Com isso, a energia injetada pela MMGD deverá representar 21,2% do mercado cativo em 2026, contra 17,8% em 2025.
O painel também indica avanço da participação do mercado livre no mercado de distribuição: de 39,9% em 2025 para uma expectativa de 41,2% em 2026.
Os números mostram que a transformação do mercado elétrico ocorre simultaneamente em duas frentes: a geração está se tornando mais distribuída e o consumo está migrando progressivamente para o ambiente livre. Isso aumenta a importância da qualidade dos dados de distribuição, das curvas de carga e da capacidade das redes de acomodar fluxos bidirecionais.
4. Regulação e Tarifas
Outubro terá bandeira verde após meses de sinalização amarela
A ANEEL confirmou, em 25 de setembro, bandeira verde para outubro, eliminando a cobrança adicional na conta de energia dos consumidores.
A mudança ocorre após a melhora das condições de geração, especialmente com o início da transição para o período úmido em parte das principais bacias hidrográficas do país. Segundo a Agência, o aumento das chuvas contribuiu para estabilizar os níveis dos reservatórios e reduzir a necessidade de despacho de termelétricas de maior custo.
A decisão encerra, ao menos temporariamente, uma sequência de meses com bandeira amarela.
O movimento também mostra a diferença entre o sinal tarifário de curto prazo e a estrutura de custos do setor. Mesmo com a bandeira verde em outubro, a terceira edição do InfoTarifas, publicada na semana anterior, apontava efeito médio tarifário de 9,4% para 2026, considerando os diversos componentes das tarifas.
Fonte: ANEEL.
Outubro terá bandeira verde — ANEEL
Outubro terá bandeira verde — ANEEL
5. O Mundo
IEA: redes elétricas entram no centro da nova “Era da Eletricidade”
A Agência Internacional de Energia publicou nesta semana dois estudos que ajudam a interpretar a transformação pela qual passa o setor elétrico mundial.
O relatório “Modernising Grids in the Age of Electricity”, publicado em 21 de setembro, destaca que a expansão das redes precisa ocorrer simultaneamente à utilização mais eficiente da infraestrutura existente. A IEA aponta tecnologias digitais, inteligência artificial, sistemas de monitoramento, controle avançado e grid-enhancing technologies como ferramentas para aumentar a capacidade e a flexibilidade das redes existentes.
No dia seguinte, a Agência publicou o relatório “Electrification”, segundo o qual a demanda mundial por eletricidade cresceu mais de duas vezes mais rapidamente que o consumo total de energia desde 2019.
A IEA projeta que a demanda de eletricidade continuará crescendo fortemente, impulsionada por veículos elétricos, climatização, indústria, data centers e inteligência artificial.
O ponto comum entre os dois estudos é particularmente relevante para o Brasil: eletrificar a economia significa aumentar a importância estratégica da rede elétrica. A questão deixa de ser apenas quanto de energia será produzida e passa a envolver onde ela será produzida, onde será consumida, em que horário e com que capacidade de flexibilidade.
Fontes: International Energy Agency — IEA.
Modernising Grids in the Age of Electricity — IEA
Electrification — IEA
Modernising Grids in the Age of Electricity — IEA
Electrification — IEA
Indicador da Semana
21,2%
É a participação estimada pela EPE para a energia injetada pela MMGD no mercado cativo brasileiro em 2026.
O indicador é especialmente interessante porque demonstra que a geração distribuída já deixou de ser apenas um fenômeno marginal da distribuição. Ao mesmo tempo em que cresce a geração centralizada conectada à transmissão, uma parcela cada vez maior da energia passa a ser produzida próxima ao consumidor.
Acompanhamento
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Próximos passos da ANEEL, ONS e CCEE para incorporar a resposta da demanda aos modelos de operação e formação de preços.
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Evolução da primeira contratação de baterias na transmissão e dos futuros leilões de armazenamento.
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Leilão de Transmissão nº 4/2026, marcado para 30 de outubro.
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Crescimento da MMGD e seus efeitos sobre curvas de carga, fluxo de potência e perdas na distribuição.
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Avanço da abertura do mercado livre e seus efeitos sobre o mercado de distribuição.
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Impactos da modernização das redes e das novas cargas sobre o planejamento elétrico.
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Semana de 21 a 27 de setembro de 2026
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