Gigante mundial de computadores, a Dell quer ser a primeira no mundo em tecnologia sustentável, a chamada TI verde. Para isso, lançou o programa ReGeneration, que, como o nome sugere, quer regenerar as ações em defesa do meio ambiente. Um passo decisivo na meta de liderar as iniciativas será o anúncio ainda neste ano da neutralidade em carbono nas suas operações, desde o desenvolvimento de programas à produção de seus equipamentos e envio aos usuários, obtida da equação que confronta uso de energias não-renováveis e renováveis.
O gerente sênior de assuntos corporativos da Dell para a América Latina, Gléverton de Munno, que dirige o Comitê de Tecnologia em Negócios da Câmara Americana de Comércio (Amcham) em Porto Alegre, provoca as empresas a incorporarem em seu dia-a-dia, que inclui a relação com clientes empresariais e domésticos, o valor da TI verde. Um dos focos da empresa é maior eficiência no uso de energias. Para o administrador de empresas e advogado, com MBA em negócios internacionais e há nove anos na Dell, a tecnologia da informação aumenta a produtividade da economia e deve ser a fonte de solução para maior eficiência no consumo energético. No Brasil, a política se traduz em conversações que incluem a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Munno afirma que a Aneel não deve agir apenas sob a ótica do suprimento, mas deve cuidar de perdas e economia no uso. Também está na missão ambiental da Dell o destino do lixo eletrônico. Levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que apenas 10% dos computadores descartados por usuários são coletados para reciclagem ou destino adequado dos materiais sem utilidade. Hoje há um bilhão de computadores no mundo, que devem alcançar dois bilhões até 2011. Por dia, são vendidos 140 mil unidades. O Brasil é o quinto maior mercado. Por isso, o executivo da Dell tem pressa em despertar as empresas, governos e consumidores para ações de TI que possam frear o aquecimento global. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o executivo revela que a empresa reduzirá em até 25% o consumo energético de todos os desktops e notebooks da marca até 2010. "Isso é tecnologia, funcionalidade e inovação". Na linguagem do ReGeneration, assim a Dell quer rejuvenescer o planeta.
Jornal do Comércio - O que é a Tecnologia de Informação (TI) verde?Gléverton de Munno - É uma tendência dentro da sociedade sobre o papel da Tecnologia da Informação dentro da questão socioambiental. Define como a TI vai se comportar ante o aquecimento global, o consumo de energia e o lixo eletrônico. O foco é eficiência energética. A TI é parte da solução, que passa pelo uso mais eficiente da energia, reduzindo o consumo e o lixo eletrônico. A utilização e disseminação da tecnologia da informação torna a economia mais produtiva. Para cada quilowatt demandado pela TI, economiza-se 10 quilowatts no restante da sociedade.
Mas precisamos eliminar a complexidade das tarefas e simplificar o uso nas empresas e pelos usuários domésticos, cujo efeito é maior produtividade e eficiência no consumo de energia.JC - Quais são as principais ações da Dell nesse sentido?Munno - Nossa abordagem envolve todo o ciclo de vida total do produto - desde o projeto, a fabricação, o uso e a experiência do cliente até a coleta da máquina para reutilização e reciclagem. Nenhum produto hoje utiliza metais pesados, como chumbo, mercúrio e cádmio.
Tudo é pensado. Temos compromisso em reduzir em até 25% o consumo energético de todos os desktops e notebooks da marca até 2010. Isso é tecnologia, funcionalidade e inovação aplicados constantemente pela empresa.JC - E a busca por fontes renováveis de energia?Munno - Temos de olhar essa questão do âmbito global e também local. No mundo, o padrão que domina é o uso de combustível fóssil para produzir energia. No Brasil, a matriz é dependente da água, o que é bom, mesmo que haja divergências sobre o impacto para os ecossistemas. Mas buscamos, aqui e em outras sedes no planeta, utilizar energias renováveis. Na sede da Dell, em Austin, fizemos um acordo com o município para utilizar energia renovável a partir do lixo, o que se mostrou economicamente viável. Usamos energia 100% verde.
Na fábrica no Brasil, em Ortolândia, a energia vem do sistema, e é 85% de fonte hídrica. Precisamos promover a geração de energia limpa. O desmatamento da Amazônia é outro problema. Desmatar um Rio de Janeiro por mês é muito.JC - As empresas se preocupam com o desmatamento, mas ignoram o destino do lixo eletrônico. Como está a atenção das empresas de TI para o destino dos produtos?Munno - Esse debate surge agora no Brasil, mas não é novo na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Estamos discutindo, em Brasília, uma política nacional de resíduo sólido. Há legislações estaduais que buscam abordar o problema. Mas o debate está fragmentado. Tem de qualificar a discussão entre os atores políticos e econômicos.
Adotamos o conceito de logística reversa e da co-responsabilidade. Cada um tem de fazer a sua parte - consumidor, empresas, organizações não-governamentais (ONGs) e empresas de reciclagem. A ONU diz que apenas 10% dos computadores no mundo são coletados. Temos hoje 1 bilhão de unidades nas mãos de usuários. Uma questão é se o fabricante ou importador tem de responder 100% pelo destino do produto. Quando é identificado, pode ser que sim, mas no caso da pirataria, como vai ser?JC - Deve haver legislação nacional definindo essas responsabilidades?Munno - A Dell já faz isso. Saiu na frente nesta prática, independentemente de ter uma lei. Disponibilizamos mundialmente a coleta para computadores de usuários domésticos.
Todo usuário que queira devolver a máquina terá solução gratuita, assegurada diretamente pela Dell ou pela estrutura de logística. O equipamento é recolhido e tem destino correto. Fazemos por ética e por uma prática socioambiental em relação ao lixo eletrônico. As empresas não precisam esperar por uma lei ou um acordo com o Ministério Público, que se verifica em algumas áreas. Devem buscar também uma solução com a sociedade para os problemas.JC - Essas práticas aumentam o custo de produção?Munno - Temos como prática socioambientalmente responsável.
A questão do custo não é relevante pois incorporamos ao processo dos negócios. Não medimos quanto vai custar. Temos política e aplicamos em todo mundo. Quem quiser conhecer é só entrar no endereço www.dell.com.br/doecomputador, que terá uma lista dos serviços de coleta oferecidos pela companhia. A TI não pode ser vista só pelo lado do problema do lixo eletrônico. Ela tem de ser enxergada pelo lado da solução da eficiência energética: na produção e nos pós-consumo. A Dell tem preocupação permanente com reutilização antes de transformar em lixo tecnológico.JC - Como a empresa conseguirá alcançar a neutralidade do carbono?Munno - A Dell saiu na frente. É a primeira empresa de tecnologia a fazer a neutralidade do carbono. Vamos atingir essa posição em 2008, o que deve ser anunciado em breve.
O presidente mundial da companhia, Michael Dell, lançou o desafio há um ano e meio. Todas as empresas deveriam lançar essa meta. Antes de se preocupar com o plantio de árvores, as empresas deveriam devem fazer uma reengenharia e simplificar seus processos de negócios para consumir menos energia. Depois de fazer o off-set, busca-se a compensação do carbono pelo plantio de árvores. A Dell tem o programa Plante uma árvore para mim em que o cliente pode por US$ 2 na compra de notebook, ou por US$ 6, na aquisição de um desktop, compensar, por meio do plantio, o consumo de energia de toda a vida útil do produto. Essa campanha chegará em breve aos países emergentes.JC - O que é o programa ReGeneration?Munno - É um movimento social.
A Regeneração, como indica o nome, pode ser conhecida no MailScanner (www.regeneration.org) e já possui mais de 200 mil pessoas visitantes e usuários. O site tem diversas discussões sobre esses temas e ações que podem ser adotadas por empresas e pessoas. São atitudes simples, desde menor consumo de energia, coleta seletiva de lixo doméstico, passando por soluções como a virtualização do datacenter. É um espaço para discutir como, pela sua atitude, melhoramos o padrão de consumo de energia e reduzimos o aquecimento global. A Dell participa do processo e convida usuários e clientes a se tornarem um pouco mais verdes. Se isso ocorrer, vamos fazer a diferença neste mundo.

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