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domingo, 1 de novembro de 2026

Panorama do Mercado de Energia Elétrica - Edição nº 50 | 26 de outubro a 1º de novembro de 2026

Mercado livre, expansão da transmissão, crescimento do consumo e planejamento energético
Editorial da Semana
A semana trouxe novidades importantes para a estruturação do mercado livre e para a expansão da infraestrutura elétrica brasileira. A ANEEL abriu uma consulta pública para regulamentar o fim dos descontos nas tarifas de uso dos sistemas de transmissão e distribuição em determinadas situações. Na transmissão, o leilão realizado em 30 de outubro contratou os oito lotes ofertados, com investimentos estimados em R$ 8,9 bilhões.
Também foram divulgados novos dados sobre o consumo de eletricidade e as projeções de demanda para a próxima década. Esses números reforçam a importância de planejar a expansão das redes diante do crescimento de novas cargas, como centros de dados, eletromobilidade e produção de hidrogênio.
Nesta edição, as informações estão classificadas conforme sua natureza. Consultas públicas são apresentadas como propostas em discussão; projeções são identificadas como estimativas; e declarações de autoridades ou análises de veículos não são tratadas como comprovação independente de seus argumentos.
1. Mercado livre | ANEEL abre consulta sobre o fim dos descontos na TUSD e na TUST
Classificação: Fato verificado — consulta pública, com propostas ainda não aprovadas definitivamente.
Em 27 de outubro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aprovou a abertura da Consulta Pública nº 040/2026 para regulamentar o fim dos descontos nas Tarifas de Uso dos Sistemas de Distribuição (TUSD) e de Transmissão (TUST), conforme as alterações introduzidas pela Lei nº 15.269/2025.
A discussão envolve consumidores que migrarem para o mercado livre após a vigência da lei ou solicitarem aumento da capacidade contratada de uso dos sistemas. A Agência propõe alterações nas Resoluções Normativas nº 1.000/2021 e nº 1.009/2022 para adequar os procedimentos à nova legislação.
Entre os pontos submetidos à discussão estão:
A ANEEL também propõe atribuir às distribuidoras e ao ONS a responsabilidade pela atualização dos montantes de uso da rede junto à CCEE.
O que está definido e o que não está: a abertura da consulta está aprovada, mas os critérios apresentados ainda são propostas. A regulamentação final dependerá da análise das contribuições e da deliberação posterior da Agência.
Prazo da consulta: 29 de outubro a 14 de dezembro de 2026.
Relevância para os consumidores: a regulamentação poderá afetar a economia esperada na migração ao mercado livre e o tratamento de ampliações de demanda. Para consumidores que avaliam migrar ou expandir suas instalações, será importante acompanhar a definição do marco temporal e dos critérios de manutenção dos descontos.
2. Transmissão | Leilão 4/2026 contrata os oito lotes e prevê R$ 8,9 bilhões em investimentos
Classificação: Fato verificado — resultado de leilão realizado.
Em 30 de outubro, foi realizado na B3, em São Paulo, o Leilão de Transmissão nº 4/2026, que ofertou oito lotes de empreendimentos em sete estados: Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Rondônia e São Paulo.
Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), o certame contratou os oito lotes, com investimentos estimados em mais de R$ 8,9 bilhões. Os empreendimentos contemplam aproximadamente 1.866 quilômetros de linhas de transmissão e devem gerar cerca de 20,3 mil empregos.
O deságio médio em relação à Receita Anual Permitida (RAP) foi de 50,1%.
Entre os projetos de maior destaque está o Lote 4, dividido nos sublotes 4A e 4B, com investimentos estimados em R$ 4,11 bilhões e previsão de construção de 1.167 quilômetros de linhas. O empreendimento envolve Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná e deverá ampliar a capacidade de escoamento da energia produzida na região.
Outro destaque é o Lote 3, que prevê a construção da Subestação Santana, em Mogi das Cruzes (SP), com capacidade de transformação de 3.600 MVA e investimento estimado em R$ 1,83 bilhão.
Análise editorial: o resultado demonstra a capacidade de atrair competição para a expansão da transmissão, mas o deságio elevado, isoladamente, não comprova que os empreendimentos serão concluídos sem dificuldades. A execução dependerá do cumprimento dos cronogramas, do licenciamento ambiental, da disponibilidade de equipamentos e das condições de financiamento.
O acompanhamento dos prazos de implantação será tão importante quanto o resultado econômico do leilão.
3. Consumo de energia | EPE registra crescimento de 4% em setembro e avanço do mercado livre
Classificação: Fato verificado — dados estatísticos oficiais.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgou, em 30 de outubro, a Resenha Mensal do Mercado de Energia Elétrica com os dados de setembro de 2026.
O consumo nacional alcançou 48.184 GWh, crescimento de 4,0% em relação a setembro de 2025. Foi o sexto mês consecutivo de aumento na comparação anual.
Todas as classes apresentaram crescimento:
Regionalmente, o Centro-Oeste registrou o maior crescimento, com 10,5%, seguido pelo Norte, com 7,3%, e pelo Nordeste, com 5,6%. No Sul, a expansão foi de 2,6%.
No mercado livre, o consumo somou 21.938 GWh, equivalente a 45,5% do consumo nacional. Na comparação anual, houve crescimento de 3,6% no consumo e de 16,5% no número de consumidores.
No mercado regulado das distribuidoras, o consumo foi de 26.246 GWh, representando 54,5% do total, com alta de 4,4% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
Um dado que merece atenção: o número de consumidores livres cresceu 16,5%, enquanto o consumo desse ambiente avançou 3,6%. Isso indica que a expansão do número de participantes não se traduz necessariamente em crescimento proporcional do volume de energia comercializado. A comparação, entretanto, não permite concluir isoladamente sobre o porte médio dos novos consumidores ou sobre a rentabilidade das comercializadoras.
4. Planejamento energético | PDE 2036 projeta crescimento de 3,4% ao ano no consumo de eletricidade
Classificação: Projeção oficial — cenário de planejamento, não previsão garantida.
Em 26 de outubro, o MME e a EPE divulgaram o Caderno de Demanda de Energia do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2036.
O estudo projeta crescimento médio de 3,4% ao ano no consumo total de eletricidade entre 2026 e 2036, alcançando 979 TWh no final do período.
O consumo de energia elétrica atendido pela rede deverá passar de 620 TWh em 2026 para 878 TWh em 2036. A diferença em relação ao consumo total considera, entre outros fatores, a autoprodução de eletricidade não injetada na rede.
O documento também destaca a expansão de novas cargas:
Em conjunto, essas atividades poderão consumir aproximadamente 47 TWh em 2036, mais de dez vezes a demanda estimada para 2026. Apenas os data centers poderão alcançar 30 TWh no horizonte do estudo.
A consulta pública do PDE 2036 permanece aberta até 6 de novembro de 2026.
Interpretação dos dados: o crescimento projetado não representa apenas aumento do consumo total. A localização geográfica e a concentração dessas novas cargas podem exigir reforços específicos na transmissão e distribuição, além de planejamento para conexão e atendimento.
É importante observar que os números são cenários elaborados pela EPE e dependem de premissas econômicas, tecnológicas e regulatórias. Não devem ser interpretados como demanda já contratada ou como investimentos automaticamente assegurados.
Fontes primárias:
5. Transmissão | MME propõe mudanças no planejamento das outorgas
Classificação: Fato verificado — abertura de consulta pública sobre minuta de portaria.
Em 29 de outubro, o MME abriu consulta pública para modernizar as diretrizes de elaboração do Plano de Outorgas de Transmissão de Energia Elétrica (POTEE).
A proposta pretende substituir a Portaria MME nº 215/2020 e estabelecer procedimentos mais previsíveis para o processo, desde os estudos de planejamento até a outorga das instalações de transmissão.
Entre as mudanças propostas estão a criação de um cadastro público permanente de desenvolvedores habilitados para elaboração dos relatórios de detalhamento, a possibilidade de emissões extraordinárias do POTEE e a redefinição de atribuições entre o MME e a ANEEL.
A minuta também prevê que as concessionárias considerem expansões indicadas nos estudos de planejamento da transmissão ao analisar pedidos de acesso e contratos de conexão pendentes.
O prazo para contribuições vai até 30 de novembro de 2026.
Por que importa: o planejamento da transmissão é determinante para a conexão de novos empreendimentos de geração e de grandes consumidores. A proposta poderá modificar o fluxo de elaboração e priorização dos estudos, mas seus efeitos concretos dependerão da versão final da portaria e de sua implementação.
Situação regulatória: minuta submetida à consulta pública. Ainda não é norma vigente.
6. O Mundo | IEA alerta para concentração global das cadeias de suprimento de tecnologias limpas
Classificação: Fato verificado quanto às declarações; análise de risco estratégico atribuída à IEA.
Em 27 de outubro, durante a Singapore International Energy Week, o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (IEA), Fatih Birol, alertou para os riscos associados à concentração da cadeia global de suprimentos de tecnologias de energia limpa em um número reduzido de países.
Segundo a Reuters, Birol destacou que a demanda por eletricidade cresce rapidamente no Sudeste Asiático, impulsionada pela industrialização, climatização, veículos elétricos e centros de dados.
A reportagem também cita dados do instituto Ember segundo os quais os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) já gastaram mais de US$ 20 bilhões em produtos de tecnologias limpas fabricados na China em 2026.
A China ocupa posição dominante no fornecimento global de equipamentos para energia solar, eólica, veículos elétricos e baterias.
Análise / interpretação: a concentração de fornecedores pode representar vulnerabilidade estratégica para países que dependem de importações de equipamentos essenciais à transição energética. Entretanto, o alerta sobre risco de concentração não significa, por si só, que haverá escassez ou interrupção de fornecimento.
Para o Brasil, o tema merece atenção especialmente em relação à disponibilidade, aos preços e à diversificação de fornecedores de módulos fotovoltaicos, baterias, transformadores e outros equipamentos necessários à expansão da infraestrutura elétrica.

Radar do Setor | Sistemas isolados: MME propõe leilão para 31 localidades da Amazônia Legal
Classificação: Fato verificado — consulta pública sobre diretrizes de leilão futuro.
Em 29 de outubro, o MME abriu consulta pública sobre as diretrizes do Leilão dos Sistemas Isolados de 2027.
A proposta contempla oito lotes, com aproximadamente 123,66 MW de disponibilidade de potência requerida, destinados ao atendimento de 31 localidades nos estados do Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia e Acre.
Uma das principais diretrizes propostas é a participação mínima de 30% de energia gerada por fontes renováveis nas soluções de suprimento. A minuta também admite o uso de ativos de geração usados, desde que acompanhados de laudo técnico independente, e prevê a possibilidade de incorporação de armazenamento.
O prazo para contribuições vai até 17 de novembro de 2026.
Por que importa: os sistemas isolados ainda dependem predominantemente de geração termelétrica a diesel, com custos parcialmente cobertos pela Conta de Consumo de Combustíveis (CCC). A inclusão de fontes renováveis e armazenamento pode contribuir para reduzir o consumo de combustíveis fósseis, mas os resultados dependerão da viabilidade técnica e econômica das soluções contratadas.
Situação regulatória: diretrizes propostas em consulta pública; o leilão ainda será estruturado e realizado posteriormente.

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Sandro Geraldo Bagattoli


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domingo, 25 de outubro de 2026

Panorama do Mercado de Energia Elétrica - Edição nº 48 | 19 a 25 de outubro de 2026

Regulação, armazenamento, expansão da demanda e os desafios da infraestrutura elétrica
Editorial da Semana
A semana trouxe avanços regulatórios e técnicos que ajudam a compreender para onde caminha o setor elétrico brasileiro. A ANEEL abriu discussões sobre os efeitos da Reforma Tributária nos contratos de energia; a EPE publicou a metodologia para definir o preço de referência dos primeiros leilões de armazenamento em baterias; e o Ministério de Minas e Energia iniciou uma consulta pública sobre infraestrutura de recarga de veículos elétricos.
Essas iniciativas têm algo em comum: a transformação do setor exige regras econômicas consistentes, infraestrutura adequada e maior flexibilidade operacional. Nesta edição, distinguimos fatos documentados de projeções e opiniões, para que o leitor possa avaliar o grau de comprovação de cada informação.
1. Regulação e tarifas | ANEEL discute adequação dos contratos de energia à Reforma Tributária
Classificação: Fato verificado — decisão regulatória e consulta pública.
Em 20 de outubro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aprovou a abertura de consulta pública para discutir a adequação dos contratos regulados de geração e comercialização de energia elétrica, além de encargos setoriais, às mudanças decorrentes da Reforma Tributária.
A discussão envolve os efeitos da substituição do PIS/Pasep e da Cofins pela nova estrutura tributária, com a CBS e o IBS. A Agência propõe critérios para ajustar contratos cujos preços foram estabelecidos antes da publicação da Lei Complementar nº 214/2025, quando os efeitos da reforma ainda não estavam integralmente definidos.
Segundo a justificativa apresentada pela ANEEL, a manutenção de cobranças antigas em determinadas situações poderia resultar em pagamentos indevidos e repasses de custos aos consumidores. Essa é a fundamentação da proposta regulatória, não uma conclusão definitiva sobre o impacto financeiro de cada contrato.
As contribuições para esta consulta podem ser enviadas de 21 a 30 de outubro de 2026. Portanto, ao final do período desta edição, a proposta ainda está em discussão e não deve ser tratada como regra definitivamente implementada.
Por que importa: a mudança pode afetar a formação dos preços contratuais, os encargos setoriais e os procedimentos de ajuste financeiro entre os agentes. O resultado dependerá das regras finais aprovadas e de sua aplicação aos contratos abrangidos.
2. Armazenamento de energia | EPE publica metodologia para os primeiros leilões de baterias
Classificação: Fato verificado — publicação técnica oficial.
Em 19 de outubro, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicou uma nota técnica com a metodologia para definir as premissas e os parâmetros do Custo Marginal de Referência (CMR) dos Leilões de Reserva de Capacidade — Armazenamento 2026.
O estudo considera aspectos econômico-financeiros dos sistemas de armazenamento em baterias, incluindo investimentos, custos operacionais, condições contratuais e requisitos de nacionalização e financiamento.
O CMR é uma referência utilizada para definir o preço máximo admitido no certame. Ele não corresponde ao preço final de contratação, que dependerá da competição entre os participantes e das regras dos leilões.
Os certames estão previstos para 2 e 4 de dezembro de 2026, com início de suprimento previsto para 1º de agosto de 2028. A publicação da metodologia não antecipa os preços-teto finais.
Por que importa: a definição transparente dos critérios econômicos é uma etapa importante para avaliar a competitividade dos projetos de baterias. O resultado dos leilões ajudará a mostrar em que condições essa tecnologia poderá oferecer capacidade e flexibilidade ao sistema elétrico brasileiro.
3. Mobilidade elétrica | MME abre consulta sobre infraestrutura de recarga e redes elétricas
Classificação: Fato verificado — abertura de consulta pública.
Em 23 de outubro, o Ministério de Minas e Energia (MME) abriu consulta pública para reunir dados e contribuições sobre a infraestrutura de recarga de veículos elétricos e sua integração às redes de energia.
A iniciativa está organizada em seis eixos: acesso à recarga; conexão às redes; planejamento da distribuição e gestão da demanda; dados e projeções; barreiras legais e regulatórias; e cargas concentradas, como frotas de ônibus, veículos logísticos e estações de recarga rápida em rodovias.
O prazo para contribuições vai até 22 de novembro de 2026. O objetivo é construir um diagnóstico nacional sobre o estágio da eletromobilidade, os obstáculos existentes e as necessidades de investimento.
O que ainda não está definido: a abertura da consulta não significa que novas obrigações técnicas ou tarifárias já tenham sido aprovadas. A iniciativa busca levantar informações para subsidiar decisões futuras.
Por que importa: a expansão da recarga pode exigir reforços localizados na distribuição e coordenação dos horários de consumo. O efeito sobre a rede dependerá da localização, da potência dos carregadores, do perfil de utilização e das estratégias de gestão da demanda.
4. Operação do sistema | ONS revisa projeção de carga e armazenamento para outubro
Classificação: Projeção oficial — não é resultado consolidado.
Em 23 de outubro, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) reduziu sua projeção de crescimento da carga de energia para outubro de 4,9% para 4,2%, na comparação com o mesmo mês de 2025. A estimativa passou a corresponder a 85.730 MW médios.
O operador também revisou para 55,2% a previsão de armazenamento dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste ao fim do mês, ante 56,6% na estimativa anterior. Para as afluências nessa região, a projeção permaneceu acima da média histórica de outubro, embora tenha sido reduzida em relação à semana precedente.
Esses números são estimativas operacionais que podem mudar com a evolução das condições meteorológicas e do consumo. Não devem ser confundidos com a carga efetivamente verificada ao final do mês ou com os níveis finais de armazenamento.
Por que importa: o acompanhamento conjunto de carga, afluências e armazenamento ajuda a contextualizar as condições de operação do sistema. Entretanto, uma revisão semanal isolada não permite concluir, por si só, que haverá alteração relevante no custo da energia ou na segurança do suprimento.
Radar do Setor | ANEEL registra primeiro projeto de hidrelétrica reversível em ciclo fechado
Classificação: Fato verificado — registro de requerimento, não autorização definitiva para operação.
Em 21 de outubro, a ANEEL registrou o primeiro requerimento de outorga para um sistema de armazenamento do tipo usina hidrelétrica reversível em ciclo fechado. O empreendimento Salto Timbé do Sul, com potência instalada de 5,2 MW, está previsto para Timbé do Sul, em Santa Catarina.
Esse tipo de instalação utiliza reservatórios para bombear água e armazenar energia, recuperando-a posteriormente por meio da geração hidrelétrica. Na configuração em ciclo fechado, os reservatórios operam sem interferência direta no fluxo contínuo de um corpo d’água integrante de uma bacia hidrográfica.
O registro do requerimento permite avançar em etapas de viabilização, mas não garante a obtenção da autorização definitiva nem a construção da usina.
Por que importa: o projeto é um exemplo concreto da aplicação da regulamentação de sistemas de armazenamento. Seu desenvolvimento merece acompanhamento para avaliar a viabilidade técnica, ambiental e econômica dessa modalidade no Brasil.
O Mundo | A demanda por energia e infraestrutura como oportunidade de investimento
Classificação: Opinião / análise de investimento — não equivale a uma conclusão consensual do setor.
Em artigo publicado pela Reuters em 19 de outubro, identificado como Investor View, o autor defende que a economia mundial estaria entrando em uma fase de maior escassez de recursos e infraestrutura, impulsionada por fatores como inteligência artificial, centros de dados, eletrificação, crescimento industrial e tensões geopolíticas.
O texto argumenta que a resposta à expansão da demanda exigirá investimentos simultâneos em redes elétricas, transmissão, armazenamento, fontes convencionais e tecnologias de baixo carbono. A análise também sustenta que investidores deveriam privilegiar ativos de infraestrutura com vida útil longa e importância estratégica.
É importante separar os elementos do argumento: o crescimento da demanda por eletricidade e a necessidade de investimentos em redes podem ser examinados por meio de estatísticas e estudos técnicos; já a caracterização de uma nova “era de escassez” e a recomendação de estratégia de investimento são interpretações do autor.
Portanto, o artigo deve ser lido como uma perspectiva de mercado, e não como uma previsão comprovada de rentabilidade ou como evidência de que todas as tecnologias e empresas do setor serão beneficiadas.

Indicador da Semana | Como interpretar os dados
A projeção do ONS de crescimento de 4,2% da carga em outubro é o indicador quantitativo de destaque desta edição. Sua natureza é prospectiva: trata-se de uma estimativa para o mês, não de uma medição consolidada.
Para análises futuras, vale acompanhar a atualização dessa projeção, os resultados efetivos de carga e os dados de armazenamento e afluências. A comparação entre previsão e resultado será mais informativa do que interpretar isoladamente uma estimativa semanal.

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Sandro Geraldo Bagattoli


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domingo, 18 de outubro de 2026

Panorama do Mercado de Energia Elétrica - Edição Especial — 28 de setembro a 18 de outubro de 2026

A nova agenda do setor elétrico: demanda, redes e inteligência operacional
Nas últimas três semanas, diferentes acontecimentos reforçaram uma mesma tendência: o setor elétrico brasileiro está entrando em uma fase na qual a expansão da geração precisa ser acompanhada por avanços na infraestrutura, nos modelos computacionais e nos mecanismos de coordenação do mercado.
O crescimento do consumo, a ampliação da geração distribuída, as dificuldades de acesso à transmissão e os cortes de geração renovável mostram que a transformação do setor não depende apenas da instalação de novas usinas. Depende também da capacidade de integrar os recursos disponíveis, transportar a energia até os centros de consumo e coordenar decisões operacionais e comerciais.
Três movimentos merecem destaque neste período: a pressão crescente sobre a infraestrutura elétrica, a evolução das regras para administrar as restrições do sistema e a modernização dos instrumentos utilizados no planejamento e na operação.

1. Demanda em expansão: o sistema precisa acompanhar o crescimento
Consumo de eletricidade cresce 4,3% em agosto
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) informou que o consumo nacional de eletricidade alcançou 47.856 GWh em agosto de 2026, crescimento de 4,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
O avanço foi especialmente expressivo nos segmentos comercial e residencial, enquanto o mercado livre respondeu por 46,7% do consumo nacional.
Os dados demonstram que o crescimento da demanda ocorre simultaneamente à transformação do ambiente de contratação. Uma parcela crescente do consumo é atendida no mercado livre, enquanto a geração distribuída altera o volume de energia efetivamente demandado da rede de distribuição.
Essa combinação exige análises mais detalhadas do que as proporcionadas pelo consumo agregado. Para o planejamento, importa saber não apenas quanto a demanda cresce, mas também onde, em quais horários e com que perfil de utilização da infraestrutura.
Geração distribuída ganha participação no mercado de distribuição
Os dados do Painel Mercado de Distribuição da EPE indicam que a energia injetada pela micro e minigeração distribuída cresceu 41,8% em 2025, com projeção de novo avanço em 2026.
A geração distribuída modifica a relação tradicional entre distribuidora e consumidor: instalações que antes eram predominantemente consumidoras passam também a injetar energia na rede, em horários que nem sempre coincidem com os períodos de maior demanda local.
Esse fenômeno aumenta a importância das curvas de carga, das medições, da gestão dos fluxos bidirecionais e da coordenação entre geração centralizada e distribuída.
A expansão da geração próxima ao consumo pode reduzir determinadas necessidades de suprimento pela rede, mas seus efeitos dependem da localização, da coincidência temporal entre produção e demanda e da capacidade da infraestrutura local.

2. Transmissão: a conexão torna-se um recurso estratégico
Nova política de acesso procura organizar a utilização da capacidade disponível
A ANEEL avançou na adaptação das regras de acesso à transmissão à Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), por meio da Consulta Pública nº 36/2026.
O novo enfoque busca organizar solicitações em temporadas de acesso e permitir avaliações conjuntas quando a capacidade disponível não é suficiente para atender a todos os interessados.
A mudança é relevante para empreendimentos que necessitam de grandes blocos de potência, como data centers, instalações industriais e projetos de geração. A capacidade de produzir ou consumir energia não assegura, por si só, que exista infraestrutura disponível para conectar o empreendimento no local e no prazo pretendidos.
O acesso à transmissão passa, portanto, a exigir planejamento antecipado, critérios transparentes e maior coordenação entre expansão da rede, implantação de projetos e evolução da demanda.
A questão central é econômica e regulatória: como utilizar a capacidade existente de forma eficiente sem comprometer a previsibilidade necessária aos investimentos?
Leilões de transmissão continuam essenciais para a expansão do sistema
A aprovação do Leilão de Transmissão nº 4/2026, com previsão de aproximadamente R$ 8,9 bilhões em investimentos, reforça a importância da expansão física da rede.
Novas linhas, subestações e transformadores ampliam a capacidade de transportar energia e conectar empreendimentos. Entretanto, os prazos de implantação da transmissão podem ser longos, o que torna necessário antecipar as necessidades futuras do sistema.
O planejamento deve considerar não apenas a expansão das usinas, mas também a localização das novas cargas, o crescimento da geração distribuída, os pontos de congestionamento e as necessidades de reforço da infraestrutura.
A combinação entre planejamento de longo prazo e regras de acesso mais organizadas será decisiva para reduzir o risco de projetos atrasados por limitações de conexão.

3. Curtailment: da compensação passada às regras para o futuro
ANEEL aprova critérios para organizar os cortes de geração
A aprovação de uma nova regra para ordenar cortes obrigatórios de geração renovável foi um dos acontecimentos regulatórios mais importantes do período.
O curtailment ocorre quando uma usina deixa de produzir ou injetar toda a energia que poderia gerar por determinação operativa ou por restrições do sistema. Entre as causas possíveis estão limitações de transmissão, razões de confiabilidade e condições de excesso de oferta.
O problema ganhou relevância com a expansão da geração eólica e solar, cujas produções dependem das condições meteorológicas e podem se concentrar em períodos nos quais a demanda ou a capacidade de escoamento são insuficientes.
A definição de critérios de corte mais transparentes pode melhorar a previsibilidade para os agentes, mas não elimina a causa física das restrições. A redução estrutural do problema exige uma combinação de expansão da transmissão, melhor coordenação operativa, armazenamento e maior flexibilidade da demanda.
Compensação de eventos passados exige tratamento distinto
A divulgação da lista de usinas potencialmente elegíveis à compensação por cortes ocorridos entre setembro de 2023 e novembro de 2025 representou outra etapa do processo regulatório.
É importante distinguir dois assuntos: a compensação de eventos passados, sujeita às condições legais e aos procedimentos aplicáveis, e a regulamentação dos cortes futuros.
O primeiro procura tratar consequências econômicas de ocorrências anteriores. O segundo estabelece critérios para a operação daqui em diante.
Essa distinção é fundamental para avaliar os efeitos financeiros sobre geradores e comercializadores e evitar a interpretação de que a compensação retroativa elimina o risco de cortes em novos empreendimentos.
Fontes: ANEEL e CCEE.

4. Armazenamento: a tecnologia precisa encontrar seu modelo econômico
Baterias e usinas reversíveis ampliam as alternativas de flexibilidade
As iniciativas regulatórias relacionadas ao armazenamento mostram que o setor começa a tratar essa tecnologia como um recurso potencialmente importante para a operação do sistema.
Baterias eletroquímicas e usinas hidrelétricas reversíveis possuem características distintas de potência, duração, eficiência, localização e tempo de resposta. Por isso, não devem ser avaliadas como soluções equivalentes para todos os problemas.
As baterias podem responder rapidamente e prestar serviços operativos, além de deslocar energia entre horários. As usinas reversíveis podem oferecer armazenamento de maior duração, dependendo da configuração e das condições do empreendimento.
A viabilidade de cada alternativa depende do serviço contratado, dos requisitos técnicos, das condições de conexão e do modelo de remuneração.
O desafio regulatório é definir produtos e contratos que permitam remunerar adequadamente os serviços prestados, evitando tanto a contratação de capacidade desnecessária quanto a subvalorização de recursos úteis à confiabilidade do sistema.
O armazenamento não substitui a expansão da rede
Embora possa contribuir para reduzir determinadas restrições, o armazenamento não elimina a necessidade de transmissão e distribuição. Uma bateria instalada em local inadequado pode não resolver o congestionamento que impede a entrega de energia em outra região.
A avaliação econômica deve considerar a localização do recurso, o perfil horário dos preços, os custos de conexão, os serviços efetivamente prestados e as regras de operação.
A discussão sobre armazenamento deve, portanto, ser conduzida em conjunto com o planejamento da rede e a análise das necessidades operativas, e não apenas com base no custo dos equipamentos.

5. Modelos computacionais: a qualidade da operação depende da qualidade da representação
EPE, CCEE e ONS avançam em modelo computacional de código aberto
O desenvolvimento de um novo modelo computacional em código aberto por EPE, CCEE e ONS aponta para uma frente importante de modernização do setor.
Os modelos utilizados no planejamento, na programação da operação e na formação de preços precisam representar adequadamente as condições do sistema, as restrições físicas, a disponibilidade dos recursos e as decisões operacionais.
Uma ferramenta de código aberto pode favorecer a transparência metodológica, a colaboração técnica e a verificação independente. Esses benefícios, contudo, dependem de governança, documentação, validação e procedimentos rigorosos de controle de versões.
A divulgação do desenvolvimento não significa que a ferramenta já substitua os modelos atualmente utilizados. O acompanhamento deve considerar o estágio do projeto, os testes realizados e a forma como uma eventual adoção será coordenada com os processos oficiais.
Resposta da demanda expõe os limites da integração entre operação e mercado
O adiamento da incorporação da resposta da demanda aos modelos computacionais de formação de preços evidencia outra dificuldade: um recurso pode ter potencial técnico relevante e, ainda assim, exigir aperfeiçoamentos antes de ser representado adequadamente nos instrumentos utilizados na operação.
A resposta da demanda permite que consumidores reduzam, desloquem ou ajustem seu consumo conforme as condições do sistema e os incentivos econômicos. Seu potencial depende de medição, verificação de desempenho, regras de participação e mecanismos de remuneração.
A integração aos modelos precisa assegurar que o recurso seja representado de forma consistente, sem comprometer a estabilidade dos procedimentos computacionais e a transparência da formação de preços.
O caso mostra que a modernização do setor não depende apenas de novas tecnologias físicas. Também exige aperfeiçoamento dos modelos matemáticos, dos dados e das regras de mercado.
Fontes: EPE, CCEE e ONS.

6. O Mundo: grandes cargas e modernização das redes
Data centers colocam o planejamento elétrico sob nova pressão
A expansão internacional dos data centers e das aplicações de inteligência artificial está aumentando a necessidade de antecipar o crescimento de cargas de grande porte.
O debate regulatório nos Estados Unidos ilustra a dificuldade de conciliar novos empreendimentos, confiabilidade do sistema e utilização eficiente da infraestrutura existente. A localização e o cronograma de entrada em operação desses consumidores podem influenciar os investimentos necessários em geração e transmissão.
O problema não se resume ao consumo anual de energia. Grandes cargas também apresentam requisitos de potência, continuidade e conexão que precisam ser considerados no planejamento.
Para o Brasil, a experiência internacional reforça a necessidade de integrar os projetos de grandes consumidores aos estudos de expansão da rede e aos processos de acesso à transmissão.
A eletrificação pode impulsionar a atividade econômica e abrir novas oportunidades para o setor elétrico. Para que isso ocorra de maneira sustentável, a expansão das cargas deve ser acompanhada por investimentos e regras compatíveis com a segurança e a eficiência do sistema.

Indicadores do período
Indicador
Valor
Relevância
Consumo nacional em agosto
47.856 GWh
Expansão da demanda elétrica
Crescimento anual do consumo
4,3%
Pressão sobre o planejamento
Investimentos previstos no leilão de transmissão
R$ 8,9 bilhões
Ampliação da infraestrutura
Prazo previsto para a aplicação definitiva da nova regra de curtailment
18 meses após a publicação
Transição regulatória e operacional
Os indicadores têm datas-base e naturezas distintas; devem ser interpretados conforme a publicação de origem.

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