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domingo, 25 de outubro de 2026

Panorama do Mercado de Energia Elétrica - Edição nº 48 | 19 a 25 de outubro de 2026

Regulação, armazenamento, expansão da demanda e os desafios da infraestrutura elétrica
Editorial da Semana
A semana trouxe avanços regulatórios e técnicos que ajudam a compreender para onde caminha o setor elétrico brasileiro. A ANEEL abriu discussões sobre os efeitos da Reforma Tributária nos contratos de energia; a EPE publicou a metodologia para definir o preço de referência dos primeiros leilões de armazenamento em baterias; e o Ministério de Minas e Energia iniciou uma consulta pública sobre infraestrutura de recarga de veículos elétricos.
Essas iniciativas têm algo em comum: a transformação do setor exige regras econômicas consistentes, infraestrutura adequada e maior flexibilidade operacional. Nesta edição, distinguimos fatos documentados de projeções e opiniões, para que o leitor possa avaliar o grau de comprovação de cada informação.
1. Regulação e tarifas | ANEEL discute adequação dos contratos de energia à Reforma Tributária
Classificação: Fato verificado — decisão regulatória e consulta pública.
Em 20 de outubro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aprovou a abertura de consulta pública para discutir a adequação dos contratos regulados de geração e comercialização de energia elétrica, além de encargos setoriais, às mudanças decorrentes da Reforma Tributária.
A discussão envolve os efeitos da substituição do PIS/Pasep e da Cofins pela nova estrutura tributária, com a CBS e o IBS. A Agência propõe critérios para ajustar contratos cujos preços foram estabelecidos antes da publicação da Lei Complementar nº 214/2025, quando os efeitos da reforma ainda não estavam integralmente definidos.
Segundo a justificativa apresentada pela ANEEL, a manutenção de cobranças antigas em determinadas situações poderia resultar em pagamentos indevidos e repasses de custos aos consumidores. Essa é a fundamentação da proposta regulatória, não uma conclusão definitiva sobre o impacto financeiro de cada contrato.
As contribuições para esta consulta podem ser enviadas de 21 a 30 de outubro de 2026. Portanto, ao final do período desta edição, a proposta ainda está em discussão e não deve ser tratada como regra definitivamente implementada.
Por que importa: a mudança pode afetar a formação dos preços contratuais, os encargos setoriais e os procedimentos de ajuste financeiro entre os agentes. O resultado dependerá das regras finais aprovadas e de sua aplicação aos contratos abrangidos.
2. Armazenamento de energia | EPE publica metodologia para os primeiros leilões de baterias
Classificação: Fato verificado — publicação técnica oficial.
Em 19 de outubro, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicou uma nota técnica com a metodologia para definir as premissas e os parâmetros do Custo Marginal de Referência (CMR) dos Leilões de Reserva de Capacidade — Armazenamento 2026.
O estudo considera aspectos econômico-financeiros dos sistemas de armazenamento em baterias, incluindo investimentos, custos operacionais, condições contratuais e requisitos de nacionalização e financiamento.
O CMR é uma referência utilizada para definir o preço máximo admitido no certame. Ele não corresponde ao preço final de contratação, que dependerá da competição entre os participantes e das regras dos leilões.
Os certames estão previstos para 2 e 4 de dezembro de 2026, com início de suprimento previsto para 1º de agosto de 2028. A publicação da metodologia não antecipa os preços-teto finais.
Por que importa: a definição transparente dos critérios econômicos é uma etapa importante para avaliar a competitividade dos projetos de baterias. O resultado dos leilões ajudará a mostrar em que condições essa tecnologia poderá oferecer capacidade e flexibilidade ao sistema elétrico brasileiro.
3. Mobilidade elétrica | MME abre consulta sobre infraestrutura de recarga e redes elétricas
Classificação: Fato verificado — abertura de consulta pública.
Em 23 de outubro, o Ministério de Minas e Energia (MME) abriu consulta pública para reunir dados e contribuições sobre a infraestrutura de recarga de veículos elétricos e sua integração às redes de energia.
A iniciativa está organizada em seis eixos: acesso à recarga; conexão às redes; planejamento da distribuição e gestão da demanda; dados e projeções; barreiras legais e regulatórias; e cargas concentradas, como frotas de ônibus, veículos logísticos e estações de recarga rápida em rodovias.
O prazo para contribuições vai até 22 de novembro de 2026. O objetivo é construir um diagnóstico nacional sobre o estágio da eletromobilidade, os obstáculos existentes e as necessidades de investimento.
O que ainda não está definido: a abertura da consulta não significa que novas obrigações técnicas ou tarifárias já tenham sido aprovadas. A iniciativa busca levantar informações para subsidiar decisões futuras.
Por que importa: a expansão da recarga pode exigir reforços localizados na distribuição e coordenação dos horários de consumo. O efeito sobre a rede dependerá da localização, da potência dos carregadores, do perfil de utilização e das estratégias de gestão da demanda.
4. Operação do sistema | ONS revisa projeção de carga e armazenamento para outubro
Classificação: Projeção oficial — não é resultado consolidado.
Em 23 de outubro, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) reduziu sua projeção de crescimento da carga de energia para outubro de 4,9% para 4,2%, na comparação com o mesmo mês de 2025. A estimativa passou a corresponder a 85.730 MW médios.
O operador também revisou para 55,2% a previsão de armazenamento dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste ao fim do mês, ante 56,6% na estimativa anterior. Para as afluências nessa região, a projeção permaneceu acima da média histórica de outubro, embora tenha sido reduzida em relação à semana precedente.
Esses números são estimativas operacionais que podem mudar com a evolução das condições meteorológicas e do consumo. Não devem ser confundidos com a carga efetivamente verificada ao final do mês ou com os níveis finais de armazenamento.
Por que importa: o acompanhamento conjunto de carga, afluências e armazenamento ajuda a contextualizar as condições de operação do sistema. Entretanto, uma revisão semanal isolada não permite concluir, por si só, que haverá alteração relevante no custo da energia ou na segurança do suprimento.
Radar do Setor | ANEEL registra primeiro projeto de hidrelétrica reversível em ciclo fechado
Classificação: Fato verificado — registro de requerimento, não autorização definitiva para operação.
Em 21 de outubro, a ANEEL registrou o primeiro requerimento de outorga para um sistema de armazenamento do tipo usina hidrelétrica reversível em ciclo fechado. O empreendimento Salto Timbé do Sul, com potência instalada de 5,2 MW, está previsto para Timbé do Sul, em Santa Catarina.
Esse tipo de instalação utiliza reservatórios para bombear água e armazenar energia, recuperando-a posteriormente por meio da geração hidrelétrica. Na configuração em ciclo fechado, os reservatórios operam sem interferência direta no fluxo contínuo de um corpo d’água integrante de uma bacia hidrográfica.
O registro do requerimento permite avançar em etapas de viabilização, mas não garante a obtenção da autorização definitiva nem a construção da usina.
Por que importa: o projeto é um exemplo concreto da aplicação da regulamentação de sistemas de armazenamento. Seu desenvolvimento merece acompanhamento para avaliar a viabilidade técnica, ambiental e econômica dessa modalidade no Brasil.
O Mundo | A demanda por energia e infraestrutura como oportunidade de investimento
Classificação: Opinião / análise de investimento — não equivale a uma conclusão consensual do setor.
Em artigo publicado pela Reuters em 19 de outubro, identificado como Investor View, o autor defende que a economia mundial estaria entrando em uma fase de maior escassez de recursos e infraestrutura, impulsionada por fatores como inteligência artificial, centros de dados, eletrificação, crescimento industrial e tensões geopolíticas.
O texto argumenta que a resposta à expansão da demanda exigirá investimentos simultâneos em redes elétricas, transmissão, armazenamento, fontes convencionais e tecnologias de baixo carbono. A análise também sustenta que investidores deveriam privilegiar ativos de infraestrutura com vida útil longa e importância estratégica.
É importante separar os elementos do argumento: o crescimento da demanda por eletricidade e a necessidade de investimentos em redes podem ser examinados por meio de estatísticas e estudos técnicos; já a caracterização de uma nova “era de escassez” e a recomendação de estratégia de investimento são interpretações do autor.
Portanto, o artigo deve ser lido como uma perspectiva de mercado, e não como uma previsão comprovada de rentabilidade ou como evidência de que todas as tecnologias e empresas do setor serão beneficiadas.

Indicador da Semana | Como interpretar os dados
A projeção do ONS de crescimento de 4,2% da carga em outubro é o indicador quantitativo de destaque desta edição. Sua natureza é prospectiva: trata-se de uma estimativa para o mês, não de uma medição consolidada.
Para análises futuras, vale acompanhar a atualização dessa projeção, os resultados efetivos de carga e os dados de armazenamento e afluências. A comparação entre previsão e resultado será mais informativa do que interpretar isoladamente uma estimativa semanal.

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Sandro Geraldo Bagattoli


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domingo, 18 de outubro de 2026

Panorama do Mercado de Energia Elétrica - Edição Especial — 28 de setembro a 18 de outubro de 2026

A nova agenda do setor elétrico: demanda, redes e inteligência operacional
Nas últimas três semanas, diferentes acontecimentos reforçaram uma mesma tendência: o setor elétrico brasileiro está entrando em uma fase na qual a expansão da geração precisa ser acompanhada por avanços na infraestrutura, nos modelos computacionais e nos mecanismos de coordenação do mercado.
O crescimento do consumo, a ampliação da geração distribuída, as dificuldades de acesso à transmissão e os cortes de geração renovável mostram que a transformação do setor não depende apenas da instalação de novas usinas. Depende também da capacidade de integrar os recursos disponíveis, transportar a energia até os centros de consumo e coordenar decisões operacionais e comerciais.
Três movimentos merecem destaque neste período: a pressão crescente sobre a infraestrutura elétrica, a evolução das regras para administrar as restrições do sistema e a modernização dos instrumentos utilizados no planejamento e na operação.

1. Demanda em expansão: o sistema precisa acompanhar o crescimento
Consumo de eletricidade cresce 4,3% em agosto
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) informou que o consumo nacional de eletricidade alcançou 47.856 GWh em agosto de 2026, crescimento de 4,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
O avanço foi especialmente expressivo nos segmentos comercial e residencial, enquanto o mercado livre respondeu por 46,7% do consumo nacional.
Os dados demonstram que o crescimento da demanda ocorre simultaneamente à transformação do ambiente de contratação. Uma parcela crescente do consumo é atendida no mercado livre, enquanto a geração distribuída altera o volume de energia efetivamente demandado da rede de distribuição.
Essa combinação exige análises mais detalhadas do que as proporcionadas pelo consumo agregado. Para o planejamento, importa saber não apenas quanto a demanda cresce, mas também onde, em quais horários e com que perfil de utilização da infraestrutura.
Geração distribuída ganha participação no mercado de distribuição
Os dados do Painel Mercado de Distribuição da EPE indicam que a energia injetada pela micro e minigeração distribuída cresceu 41,8% em 2025, com projeção de novo avanço em 2026.
A geração distribuída modifica a relação tradicional entre distribuidora e consumidor: instalações que antes eram predominantemente consumidoras passam também a injetar energia na rede, em horários que nem sempre coincidem com os períodos de maior demanda local.
Esse fenômeno aumenta a importância das curvas de carga, das medições, da gestão dos fluxos bidirecionais e da coordenação entre geração centralizada e distribuída.
A expansão da geração próxima ao consumo pode reduzir determinadas necessidades de suprimento pela rede, mas seus efeitos dependem da localização, da coincidência temporal entre produção e demanda e da capacidade da infraestrutura local.

2. Transmissão: a conexão torna-se um recurso estratégico
Nova política de acesso procura organizar a utilização da capacidade disponível
A ANEEL avançou na adaptação das regras de acesso à transmissão à Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), por meio da Consulta Pública nº 36/2026.
O novo enfoque busca organizar solicitações em temporadas de acesso e permitir avaliações conjuntas quando a capacidade disponível não é suficiente para atender a todos os interessados.
A mudança é relevante para empreendimentos que necessitam de grandes blocos de potência, como data centers, instalações industriais e projetos de geração. A capacidade de produzir ou consumir energia não assegura, por si só, que exista infraestrutura disponível para conectar o empreendimento no local e no prazo pretendidos.
O acesso à transmissão passa, portanto, a exigir planejamento antecipado, critérios transparentes e maior coordenação entre expansão da rede, implantação de projetos e evolução da demanda.
A questão central é econômica e regulatória: como utilizar a capacidade existente de forma eficiente sem comprometer a previsibilidade necessária aos investimentos?
Leilões de transmissão continuam essenciais para a expansão do sistema
A aprovação do Leilão de Transmissão nº 4/2026, com previsão de aproximadamente R$ 8,9 bilhões em investimentos, reforça a importância da expansão física da rede.
Novas linhas, subestações e transformadores ampliam a capacidade de transportar energia e conectar empreendimentos. Entretanto, os prazos de implantação da transmissão podem ser longos, o que torna necessário antecipar as necessidades futuras do sistema.
O planejamento deve considerar não apenas a expansão das usinas, mas também a localização das novas cargas, o crescimento da geração distribuída, os pontos de congestionamento e as necessidades de reforço da infraestrutura.
A combinação entre planejamento de longo prazo e regras de acesso mais organizadas será decisiva para reduzir o risco de projetos atrasados por limitações de conexão.

3. Curtailment: da compensação passada às regras para o futuro
ANEEL aprova critérios para organizar os cortes de geração
A aprovação de uma nova regra para ordenar cortes obrigatórios de geração renovável foi um dos acontecimentos regulatórios mais importantes do período.
O curtailment ocorre quando uma usina deixa de produzir ou injetar toda a energia que poderia gerar por determinação operativa ou por restrições do sistema. Entre as causas possíveis estão limitações de transmissão, razões de confiabilidade e condições de excesso de oferta.
O problema ganhou relevância com a expansão da geração eólica e solar, cujas produções dependem das condições meteorológicas e podem se concentrar em períodos nos quais a demanda ou a capacidade de escoamento são insuficientes.
A definição de critérios de corte mais transparentes pode melhorar a previsibilidade para os agentes, mas não elimina a causa física das restrições. A redução estrutural do problema exige uma combinação de expansão da transmissão, melhor coordenação operativa, armazenamento e maior flexibilidade da demanda.
Compensação de eventos passados exige tratamento distinto
A divulgação da lista de usinas potencialmente elegíveis à compensação por cortes ocorridos entre setembro de 2023 e novembro de 2025 representou outra etapa do processo regulatório.
É importante distinguir dois assuntos: a compensação de eventos passados, sujeita às condições legais e aos procedimentos aplicáveis, e a regulamentação dos cortes futuros.
O primeiro procura tratar consequências econômicas de ocorrências anteriores. O segundo estabelece critérios para a operação daqui em diante.
Essa distinção é fundamental para avaliar os efeitos financeiros sobre geradores e comercializadores e evitar a interpretação de que a compensação retroativa elimina o risco de cortes em novos empreendimentos.
Fontes: ANEEL e CCEE.

4. Armazenamento: a tecnologia precisa encontrar seu modelo econômico
Baterias e usinas reversíveis ampliam as alternativas de flexibilidade
As iniciativas regulatórias relacionadas ao armazenamento mostram que o setor começa a tratar essa tecnologia como um recurso potencialmente importante para a operação do sistema.
Baterias eletroquímicas e usinas hidrelétricas reversíveis possuem características distintas de potência, duração, eficiência, localização e tempo de resposta. Por isso, não devem ser avaliadas como soluções equivalentes para todos os problemas.
As baterias podem responder rapidamente e prestar serviços operativos, além de deslocar energia entre horários. As usinas reversíveis podem oferecer armazenamento de maior duração, dependendo da configuração e das condições do empreendimento.
A viabilidade de cada alternativa depende do serviço contratado, dos requisitos técnicos, das condições de conexão e do modelo de remuneração.
O desafio regulatório é definir produtos e contratos que permitam remunerar adequadamente os serviços prestados, evitando tanto a contratação de capacidade desnecessária quanto a subvalorização de recursos úteis à confiabilidade do sistema.
O armazenamento não substitui a expansão da rede
Embora possa contribuir para reduzir determinadas restrições, o armazenamento não elimina a necessidade de transmissão e distribuição. Uma bateria instalada em local inadequado pode não resolver o congestionamento que impede a entrega de energia em outra região.
A avaliação econômica deve considerar a localização do recurso, o perfil horário dos preços, os custos de conexão, os serviços efetivamente prestados e as regras de operação.
A discussão sobre armazenamento deve, portanto, ser conduzida em conjunto com o planejamento da rede e a análise das necessidades operativas, e não apenas com base no custo dos equipamentos.

5. Modelos computacionais: a qualidade da operação depende da qualidade da representação
EPE, CCEE e ONS avançam em modelo computacional de código aberto
O desenvolvimento de um novo modelo computacional em código aberto por EPE, CCEE e ONS aponta para uma frente importante de modernização do setor.
Os modelos utilizados no planejamento, na programação da operação e na formação de preços precisam representar adequadamente as condições do sistema, as restrições físicas, a disponibilidade dos recursos e as decisões operacionais.
Uma ferramenta de código aberto pode favorecer a transparência metodológica, a colaboração técnica e a verificação independente. Esses benefícios, contudo, dependem de governança, documentação, validação e procedimentos rigorosos de controle de versões.
A divulgação do desenvolvimento não significa que a ferramenta já substitua os modelos atualmente utilizados. O acompanhamento deve considerar o estágio do projeto, os testes realizados e a forma como uma eventual adoção será coordenada com os processos oficiais.
Resposta da demanda expõe os limites da integração entre operação e mercado
O adiamento da incorporação da resposta da demanda aos modelos computacionais de formação de preços evidencia outra dificuldade: um recurso pode ter potencial técnico relevante e, ainda assim, exigir aperfeiçoamentos antes de ser representado adequadamente nos instrumentos utilizados na operação.
A resposta da demanda permite que consumidores reduzam, desloquem ou ajustem seu consumo conforme as condições do sistema e os incentivos econômicos. Seu potencial depende de medição, verificação de desempenho, regras de participação e mecanismos de remuneração.
A integração aos modelos precisa assegurar que o recurso seja representado de forma consistente, sem comprometer a estabilidade dos procedimentos computacionais e a transparência da formação de preços.
O caso mostra que a modernização do setor não depende apenas de novas tecnologias físicas. Também exige aperfeiçoamento dos modelos matemáticos, dos dados e das regras de mercado.
Fontes: EPE, CCEE e ONS.

6. O Mundo: grandes cargas e modernização das redes
Data centers colocam o planejamento elétrico sob nova pressão
A expansão internacional dos data centers e das aplicações de inteligência artificial está aumentando a necessidade de antecipar o crescimento de cargas de grande porte.
O debate regulatório nos Estados Unidos ilustra a dificuldade de conciliar novos empreendimentos, confiabilidade do sistema e utilização eficiente da infraestrutura existente. A localização e o cronograma de entrada em operação desses consumidores podem influenciar os investimentos necessários em geração e transmissão.
O problema não se resume ao consumo anual de energia. Grandes cargas também apresentam requisitos de potência, continuidade e conexão que precisam ser considerados no planejamento.
Para o Brasil, a experiência internacional reforça a necessidade de integrar os projetos de grandes consumidores aos estudos de expansão da rede e aos processos de acesso à transmissão.
A eletrificação pode impulsionar a atividade econômica e abrir novas oportunidades para o setor elétrico. Para que isso ocorra de maneira sustentável, a expansão das cargas deve ser acompanhada por investimentos e regras compatíveis com a segurança e a eficiência do sistema.

Indicadores do período
Indicador
Valor
Relevância
Consumo nacional em agosto
47.856 GWh
Expansão da demanda elétrica
Crescimento anual do consumo
4,3%
Pressão sobre o planejamento
Investimentos previstos no leilão de transmissão
R$ 8,9 bilhões
Ampliação da infraestrutura
Prazo previsto para a aplicação definitiva da nova regra de curtailment
18 meses após a publicação
Transição regulatória e operacional
Os indicadores têm datas-base e naturezas distintas; devem ser interpretados conforme a publicação de origem.

Radar do Setor
Nos próximos meses, merecem acompanhamento:

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Panorama do Mercado de Energia Elétrica — Edição Especial
Período: 28 de setembro a 18 de outubro de 2026


Sandro Geraldo Bagattoli


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domingo, 27 de setembro de 2026

💡Panorama do Mercado de Energia Elétrica - Edição 44 — 21 a 27 de setembro de 2026


A eletrificação avança — e a integração passa a ser o novo desafio
O setor elétrico brasileiro entrou em uma fase em que o crescimento da oferta já não explica sozinho os movimentos mais importantes do mercado. A expansão da geração distribuída, a abertura do mercado, o crescimento de novas cargas e a necessidade de maior flexibilidade estão colocando a rede, os modelos de operação e os mecanismos de mercado no centro das decisões.
Nesta semana, esse movimento ficou particularmente evidente: a ANEEL adiou a incorporação da resposta da demanda aos modelos computacionais de formação de preços; a EPE mostrou o avanço da geração distribuída no mercado de distribuição; e um novo leilão de transmissão foi confirmado com R$ 8,9 bilhões em investimentos.
No cenário internacional, a IEA sintetizou a transformação em dois novos estudos: estamos entrando em uma “Era da Eletricidade”, enquanto as redes precisam ser modernizadas para acompanhar essa mudança.

1. Mercado em Movimento
ANEEL adia integração da resposta da demanda aos modelos de formação de preços
A ANEEL decidiu, em 22 de setembro, adiar a aprovação da representação do Programa de Resposta da Demanda na cadeia de modelos computacionais utilizada na operação do sistema e na formação do preço da energia.
A decisão não significa abandono do mecanismo. O ONS e a CCEE terão 90 dias para aperfeiçoar os mecanismos de divulgação e transparência do programa e deverão continuar os estudos necessários para sua futura representação nos modelos.
O principal obstáculo identificado foi computacional. Segundo as análises apresentadas à Agência, a inclusão da resposta da demanda poderia aumentar a complexidade e o tempo de processamento do DESSEM, em um ambiente operacional que já apresenta maior complexidade e maior frequência de acionamentos de contingência.
O episódio é relevante porque evidencia uma questão que tende a ganhar importância: não basta criar um recurso de flexibilidade; é necessário incorporá-lo adequadamente aos modelos que coordenam a operação e formam os preços.
A decisão ocorre poucos dias depois de a EPE estimar em 8,8 GW o potencial técnico de resposta da demanda no Brasil.

2. Transmissão e Infraestrutura
ANEEL confirma novo leilão de transmissão com R$ 8,9 bilhões em investimentos
A ANEEL aprovou o edital do Leilão de Transmissão nº 4/2026, marcado para 30 de outubro, na B3, em São Paulo.
O certame prevê oito lotes em sete estados, com 1.866 km de novas linhas e seccionamentos, continuidade de 483 km de linhas existentes e 12.694 MVA de capacidade de transformação. O investimento estimado é de R$ 8,9 bilhões.
Os empreendimentos serão instalados na Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Rondônia e São Paulo. Os prazos previstos para conclusão variam de 42 a 60 meses.
O leilão reforça uma característica que vem aparecendo nas últimas edições do Panorama: a expansão da geração precisa ser acompanhada pela expansão da infraestrutura que permite transportar, conectar e controlar a eletricidade.
Esse aspecto ganha ainda mais importância diante do crescimento da geração solar, dos novos consumidores livres e de cargas de grande porte.

3. Distribuição e Mercado Livre
MMGD poderá representar 21,2% do mercado cativo em 2026
A EPE publicou a edição 2026 do Painel Mercado de Distribuição, trazendo dados atualizados sobre consumo, mercado cativo e livre, geração distribuída e perdas na distribuição.
Segundo as informações fornecidas pelas distribuidoras, a energia injetada pela micro e minigeração distribuída (MMGD) cresceu 41,8% em 2025, equivalente a 16,2 TWh adicionais.
Para 2026, as distribuidoras projetam crescimento de mais 18,1%, ou aproximadamente 10 TWh.
Com isso, a energia injetada pela MMGD deverá representar 21,2% do mercado cativo em 2026, contra 17,8% em 2025.
O painel também indica avanço da participação do mercado livre no mercado de distribuição: de 39,9% em 2025 para uma expectativa de 41,2% em 2026.
Os números mostram que a transformação do mercado elétrico ocorre simultaneamente em duas frentes: a geração está se tornando mais distribuída e o consumo está migrando progressivamente para o ambiente livre. Isso aumenta a importância da qualidade dos dados de distribuição, das curvas de carga e da capacidade das redes de acomodar fluxos bidirecionais.

4. Regulação e Tarifas
Outubro terá bandeira verde após meses de sinalização amarela
A ANEEL confirmou, em 25 de setembro, bandeira verde para outubro, eliminando a cobrança adicional na conta de energia dos consumidores.
A mudança ocorre após a melhora das condições de geração, especialmente com o início da transição para o período úmido em parte das principais bacias hidrográficas do país. Segundo a Agência, o aumento das chuvas contribuiu para estabilizar os níveis dos reservatórios e reduzir a necessidade de despacho de termelétricas de maior custo.
A decisão encerra, ao menos temporariamente, uma sequência de meses com bandeira amarela.
O movimento também mostra a diferença entre o sinal tarifário de curto prazo e a estrutura de custos do setor. Mesmo com a bandeira verde em outubro, a terceira edição do InfoTarifas, publicada na semana anterior, apontava efeito médio tarifário de 9,4% para 2026, considerando os diversos componentes das tarifas.

5. O Mundo
IEA: redes elétricas entram no centro da nova “Era da Eletricidade”
A Agência Internacional de Energia publicou nesta semana dois estudos que ajudam a interpretar a transformação pela qual passa o setor elétrico mundial.
O relatório “Modernising Grids in the Age of Electricity”, publicado em 21 de setembro, destaca que a expansão das redes precisa ocorrer simultaneamente à utilização mais eficiente da infraestrutura existente. A IEA aponta tecnologias digitais, inteligência artificial, sistemas de monitoramento, controle avançado e grid-enhancing technologies como ferramentas para aumentar a capacidade e a flexibilidade das redes existentes.
No dia seguinte, a Agência publicou o relatório “Electrification”, segundo o qual a demanda mundial por eletricidade cresceu mais de duas vezes mais rapidamente que o consumo total de energia desde 2019.
A IEA projeta que a demanda de eletricidade continuará crescendo fortemente, impulsionada por veículos elétricos, climatização, indústria, data centers e inteligência artificial.
O ponto comum entre os dois estudos é particularmente relevante para o Brasil: eletrificar a economia significa aumentar a importância estratégica da rede elétrica. A questão deixa de ser apenas quanto de energia será produzida e passa a envolver onde ela será produzida, onde será consumida, em que horário e com que capacidade de flexibilidade.

Indicador da Semana
21,2%
É a participação estimada pela EPE para a energia injetada pela MMGD no mercado cativo brasileiro em 2026.
O indicador é especialmente interessante porque demonstra que a geração distribuída já deixou de ser apenas um fenômeno marginal da distribuição. Ao mesmo tempo em que cresce a geração centralizada conectada à transmissão, uma parcela cada vez maior da energia passa a ser produzida próxima ao consumidor.

Acompanhamento

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Panorama do Mercado de Energia Elétrica — Edição 44
Semana de 21 a 27 de setembro de 2026


Sandro Geraldo Bagattoli


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domingo, 20 de setembro de 2026

PANORAMA DO MERCADO DE ENERGIA ELÉTRICA - Edição 43 — 14 a 20 de setembro de 2026

Segue a edição referente à semana efetivamente encerrada em 20/09/2026, com o eixo editorial definido a partir das notícias identificadas no período.
Resposta da demanda, flexibilidade e novas exigências para a rede elétrica
Editorial da Semana
A semana evidenciou uma mudança importante na lógica de planejamento do setor elétrico brasileiro: a expansão da oferta continua relevante, mas a capacidade de modular o consumo, armazenar energia e operar redes mais inteligentes passa a ocupar posição central.
O estudo da EPE sobre resposta da demanda, a discussão sobre modelos de operação das distribuidoras e os novos desafios associados à conexão de grandes cargas indicam que a flexibilidade poderá se tornar um recurso tão estratégico quanto a construção de novas usinas e linhas de transmissão.

1. EPE estima potencial de 8,8 GW para a resposta da demanda no Brasil
A Empresa de Pesquisa Energética — EPE publicou, em 18 de setembro, uma nota técnica que estima em 8,8 GW o potencial técnico de resposta da demanda no Brasil.
A resposta da demanda permite que consumidores reduzam, desloquem ou ajustem temporariamente seu consumo em reação a sinais econômicos ou operativos. O recurso pode contribuir para diminuir picos de carga, reduzir a necessidade de contratação de capacidade adicional e melhorar a integração de fontes variáveis, como solar e eólica.
A EPE também propõe aprimoramentos regulatórios e de mercado para ampliar a participação desse recurso no sistema elétrico.
Análise: o dado de 8,8 GW é expressivo porque desloca o debate da flexibilidade exclusivamente pelo lado da oferta. Consumidores industriais, comerciais e agregadores poderão assumir papel mais ativo na operação do sistema, desde que existam mecanismos de remuneração, medição, comunicação e controle adequados.

2. ANEEL revoga outorgas de 500 MW em projetos solares da Sowitec
A ANEEL revogou, em 18 de setembro, autorizações relacionadas a projetos solares da empresa alemã Sowitec que somavam aproximadamente 500 MW.
A medida está relacionada à inviabilidade de continuidade dos empreendimentos dentro dos cronogramas regulatórios. A discussão ocorre em um contexto no qual a expansão da geração renovável enfrenta desafios crescentes de conexão, disponibilidade de rede, custos de implantação e condições de mercado.
O caso também chama atenção para possíveis diferenças regulatórias entre os procedimentos de conexão de cargas e de empreendimentos de geração.
Análise: a revogação não deve ser interpretada apenas como um evento empresarial isolado. Ela ilustra o aumento do risco de execução de projetos que obtêm autorização ou avançam no desenvolvimento sem que estejam suficientemente equacionadas as condições físicas, econômicas e regulatórias para sua implantação.
Em um ambiente de forte expansão da geração solar, a disponibilidade efetiva de conexão e a viabilidade comercial passam a ser tão importantes quanto o potencial energético do empreendimento.

3. ANEEL autoriza conexão de data centers com demanda de até 297 MW em São Paulo
A ANEEL autorizou a conexão à Rede Básica de projetos de data centers da Ascenty localizados em Campinas e Vinhedo, no estado de São Paulo. As cargas previstas poderão alcançar aproximadamente 297 MW até 2029.
As autorizações foram concedidas após a obtenção dos pareceres de acesso do Operador Nacional do Sistema Elétrico — ONS.
A expansão dos data centers acrescenta uma nova camada de complexidade ao planejamento elétrico, pois esses empreendimentos apresentam cargas elevadas, exigências rigorosas de confiabilidade e potencial de crescimento acelerado.
Análise: a conexão de grandes consumidores, especialmente data centers, reforça a necessidade de coordenação entre planejamento da transmissão, expansão da distribuição, disponibilidade de capacidade e requisitos de qualidade e continuidade. Também poderá ampliar a importância de contratos específicos, soluções de armazenamento e mecanismos de gestão da demanda.
A expansão dessas cargas ocorre simultaneamente ao crescimento de projetos renováveis, tornando mais importante a compatibilização temporal e espacial entre geração, consumo e infraestrutura de rede.

4. ONS deverá elaborar plano especial de segurança do sistema para as eleições
O Ministério de Minas e Energia solicitou ao ONS a elaboração de um plano especial para garantir a segurança do Sistema Interligado Nacional durante as Eleições Gerais de 2026.
O planejamento deverá considerar o primeiro turno, previsto para 4 de outubro, e eventual segundo turno, em 25 de outubro. A preocupação envolve a manutenção da segurança operativa e da continuidade do fornecimento em um período de elevada sensibilidade institucional.
Análise: embora a medida tenha caráter circunstancial, ela evidencia a importância crescente do planejamento de contingência em um sistema elétrico mais complexo, com maior participação de fontes variáveis, crescimento de cargas críticas e necessidade de coordenação entre agentes.
A preparação para eventos de grande relevância nacional também reforça o papel do ONS na articulação de medidas preventivas e na gestão de situações operativas excepcionais.

5. EPE avança no planejamento de sistemas de armazenamento hidráulico
Em 15 de setembro, a EPE apresentou, durante seminário promovido pelo GESEL/UFRJ, o plano de trabalho para antecipar etapas do futuro procedimento competitivo de contratação de serviços prestados por sistemas de armazenamento hidráulico, incluindo usinas reversíveis.
A iniciativa está relacionada à Resolução CNPE nº 08/2026 e busca estruturar as bases técnicas e institucionais para uma futura contratação desses serviços.
As usinas reversíveis podem armazenar energia por meio do bombeamento de água para reservatórios superiores e posteriormente gerar eletricidade nos momentos de necessidade.
Análise: a discussão amplia o debate sobre armazenamento para além das baterias eletroquímicas. Sistemas hidráulicos reversíveis podem oferecer armazenamento de maior duração e serviços de flexibilidade, embora dependam de condições geográficas, ambientais, de licenciamento e de infraestrutura.
A diversificação das tecnologias de armazenamento tende a ser importante para atender necessidades distintas do sistema: resposta rápida, deslocamento intradiário de energia e armazenamento de longa duração.

O Mundo
Flexibilidade e armazenamento ganham importância na transição energética
A evolução dos sistemas elétricos em diferentes mercados indica que a expansão de fontes renováveis exige instrumentos complementares de flexibilidade. Entre eles estão baterias, resposta da demanda, redes inteligentes, interligações e novas formas de operação dos consumidores.
No Brasil, o potencial estimado de 8,8 GW para resposta da demanda e os avanços regulatórios relacionados ao armazenamento mostram que o debate já ultrapassa a simples expansão da geração renovável.
A tendência internacional é de maior integração entre consumidores, recursos distribuídos, armazenamento e operadores de rede. Esse movimento aproxima o consumidor do processo operativo e pode alterar a forma de contratação e remuneração dos serviços elétricos.

Indicador da Semana
8,8 GW — potencial técnico estimado pela EPE para a resposta da demanda no Brasil.
O número representa uma referência importante para avaliar quanto da flexibilidade do sistema poderá ser obtido por meio de ajustes no consumo, em vez de depender exclusivamente da expansão da oferta de geração.

Acompanhamento
  • Regulamentação da resposta da demanda e definição dos mecanismos de remuneração.
  • Evolução das discussões sobre armazenamento hidráulico e baterias.
  • Critérios de conexão de grandes cargas, especialmente data centers.
  • Impactos regulatórios e econômicos da restrição de acesso à rede para novos projetos de geração.
  • Preparação operativa do SIN para o período eleitoral.
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Panorama do Mercado de Energia Elétrica — Edição 43 | 14 a 20/09/2026


Sandro Geraldo Bagattoli


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