Os principais movimentos que ajudam a entender o mercado de energia elétrica.
✍️ Editorial da Semana
O gargalo do setor começa a migrar da geração para o acesso à rede
A expansão da geração renovável brasileira continua em ritmo acelerado. O problema é que produzir energia e conseguir conectá-la ao sistema são desafios diferentes.
A divulgação dos resultados iniciais da primeira Temporada de Acesso da nova Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão — PNAST — mostra isso com clareza: havia uma grande quantidade de projetos interessados em conexão, mas apenas uma parcela da potência solicitada encontra capacidade disponível nas condições atuais da rede.
Ao mesmo tempo, a ANEEL avança na regulamentação dos primeiros leilões de armazenamento de grande porte, enquanto a EPE registra novo crescimento do consumo de eletricidade.
O setor entra, portanto, em uma fase em que geração, transmissão, armazenamento e demanda precisam ser planejados de forma cada vez mais integrada.
🇧🇷 O Movimento da Semana
Primeira Temporada de Acesso aponta aproveitamento de 11 GW da potência cadastrada
O ONS divulgou em 2 de setembro os resultados quantitativos da primeira Temporada de Acesso de 2026, realizada no âmbito da Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST).
Dos projetos cadastrados para acesso à Rede Básica, a avaliação inicial indica 11 GW de potência com possibilidade de aproveitamento.
A nova sistemática representa uma mudança importante na forma de organizar o acesso de novos geradores e consumidores à transmissão. Em vez de analisar solicitações de maneira isolada, a PNAST procura organizar o processo em temporadas, considerando a capacidade remanescente do sistema e buscando maior racionalidade na expansão.
Impacto para o mercado
O resultado mostra que o desafio de expansão do setor elétrico brasileiro não está mais apenas em construir novas usinas.
Existe uma espécie de "fila" pela infraestrutura de transmissão.
Isso tem consequências importantes para investidores: a localização de um novo projeto de geração passa a ser tão estratégica quanto a qualidade do recurso solar ou eólico disponível.
Para o consumidor, o efeito também é relevante. Se a expansão da geração não for acompanhada pela infraestrutura de transmissão, podem surgir mais situações de congestionamento, restrições operativas e necessidade de cortes de geração.
A PNAST pode representar, portanto, uma mudança importante na organização do crescimento do setor.
📊 Mercado em Movimento
Consumo de energia cresce 3,7% em julho e mantém trajetória de expansão
A EPE divulgou a nova Resenha Mensal do Mercado de Energia Elétrica, mostrando que o consumo nacional alcançou 46.841 GWh em julho de 2026, crescimento de 3,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
Foi o quarto aumento consecutivo do consumo mensal de eletricidade.
O resultado mostra que a demanda continua crescendo mesmo em um cenário de forte expansão da oferta renovável.
Impacto para o mercado
O crescimento da demanda é uma notícia importante para o setor porque ajuda a absorver parte da expansão da geração.
Mas existe uma questão adicional: onde e quando essa nova demanda ocorre?
Se o crescimento estiver concentrado em determinadas regiões ou horários, será necessário adaptar a infraestrutura de transmissão e distribuição.
Esse aspecto ganha ainda mais importância com o avanço de novos consumidores intensivos em eletricidade, como data centers, veículos elétricos e processos industriais eletrificados.
🔋 Tecnologia e Inovação
ANEEL prepara os primeiros leilões de baterias de grande porte do Brasil
A ANEEL realizou em 1º de setembro audiência pública para discutir as minutas dos editais e contratos dos primeiros Leilões de Reserva de Capacidade para Armazenamento.
Os leilões previstos — de Armazenamento Nacional e Armazenamento Geral — representam um passo concreto para incorporar baterias de grande porte à estrutura de segurança e flexibilidade do sistema elétrico brasileiro.
Impacto para o mercado
Aqui aparece uma evolução importante em relação ao que vínhamos acompanhando nas últimas edições.
O armazenamento está deixando de ser apenas uma possibilidade tecnológica e começa a ganhar um mecanismo de contratação específico.
Isso pode criar uma nova classe de ativos no setor elétrico: sistemas capazes de armazenar energia e disponibilizar potência justamente quando o sistema precisar.
Para os consumidores com geração própria, a evolução também merece atenção. A criação de uma cadeia nacional de fornecedores, conhecimento técnico e modelos de operação poderá reduzir gradualmente as barreiras para aplicações menores atrás do medidor.
⚖️ Regulação e Mercado
CCEE amplia discussão sobre a evolução da formação de preços
A CCEE realizou em 31 de agosto mais uma edição do Encontro do PLD, apresentando aos agentes informações e discussões relacionadas à evolução da formação de preços no mercado brasileiro.
O encontro ocorre em um momento em que CCEE e ONS discutem novos modelos e aperfeiçoamentos metodológicos para representar de maneira mais adequada o funcionamento do sistema elétrico.
Impacto para o mercado
A discussão sobre o PLD está ficando mais sofisticada.
Com o aumento da participação de fontes variáveis, armazenamento, resposta da demanda e novas formas de contratação, os modelos precisam representar um sistema cada vez menos baseado apenas na lógica tradicional de grandes reservatórios hidrelétricos.
Para os agentes do mercado livre, isso significa que entender a formação do preço tende a ser tão importante quanto acompanhar o próprio preço.
🌎 O Mundo
Índia propõe armazenamento obrigatório para novos projetos renováveis
A Índia propôs que novos projetos governamentais de geração solar e eólica passem a incorporar sistemas de armazenamento de energia a partir de julho de 2027.
A medida pretende aumentar a capacidade de utilização da geração renovável e reduzir os problemas associados à sua variabilidade.
O que isso ensina ao Brasil
O movimento indiano é particularmente interessante porque mostra uma mudança na forma de pensar a expansão renovável.
A questão deixa de ser simplesmente:
"Quanto de geração renovável podemos instalar?"
e passa a ser:
"Quanto dessa energia conseguiremos entregar quando o sistema precisar?"
Essa é exatamente a questão que começa a aparecer no Brasil com os cortes de geração e as restrições de transmissão.
A combinação renovável + armazenamento tende a deixar de ser uma exceção e caminhar para uma característica estrutural dos novos projetos.
📊 Indicador da Semana
11 GW
É a potência que o ONS identificou como potencialmente aproveitável na primeira Temporada de Acesso de 2026 da PNAST.
Mais importante que o número isolado é o que ele representa: o acesso à rede começa a se transformar em um recurso escasso que precisa ser organizado e alocado de forma eficiente.
📌 Acompanhamento
PNAST passa a ser um tema permanente do Panorama
A primeira Temporada de Acesso merece acompanhamento nas próximas semanas porque seus resultados podem influenciar diretamente novos projetos de geração e grandes consumidores interessados em conexão à Rede Básica.
Também será importante observar como o ONS tratará os projetos que não conseguiram acesso e quais investimentos em transmissão poderão ampliar a capacidade disponível nas próximas temporadas.
👀 Radar do Setor
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Transmissão: próximos desdobramentos da primeira Temporada de Acesso da PNAST.
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Armazenamento: evolução dos editais dos primeiros leilões de baterias.
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PLD: desenvolvimento dos novos modelos de formação de preços.
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Consumo: continuidade do crescimento da demanda e sua distribuição regional.
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Geração renovável: impactos dos limites de transmissão e dos cortes de geração.
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Mercado livre: acompanhar somente novos avanços regulatórios da abertura da baixa tensão, evitando repetir o anúncio já tratado nas edições anteriores.
💬 Participe
O Panorama do Mercado de Energia Elétrica é construído para profissionais que acompanham a evolução do setor.
👉 Participe com ideias e sugestões de temas que gostaria de ver analisados nas próximas edições.
Panorama do Mercado de Energia Elétrica
Edição nº 41 • Informação, contexto e análise para quem acompanha a transformação do setor elétrico brasileiro.