Nos encontramos diante de um novo momento na economia mundial: interrupção do crescimento econômico do período 2003/2007 e inflação
Nas últimas semanas, manteve-se o clima cauteloso com que o mercado vem encarando os desdobramentos da crise internacional. De um lado, pode-se constatar que a crise norte-americana parece longe de uma solução, com os balanços dos principais bancos registrando de forma continuada os prejuízos decorrentes dos créditos sub-prime, sinais de desaceleração na economia e, simultaneamente, um crescimento persistente nos preços de commodities em geral e do petróleo em particular.
Dessa maneira, parece claro que nos encontramos diante de um novo momento na economia mundial: interrupção do crescimento econômico experimentado no período 2003/2007 e inflação, induzida pelo choque de oferta de matérias primas. Nos Estados Unidos, na União Européia e nos países emergentes assiste-se uma escalada nos preços que ameaça a estabilidade econômica.
Diante desse quadro complexo, parece claro que nosso país está enfrentando a escalada internacional de preços de insumos básicos a partir de um quadro bastante favorável.
Em primeiro lugar, a fragilidade de trinta anos atrás não mais permanece: o Brasil é auto-suficiente em termos de energia, além de grande produtor mundial de alimentos. Quando se analisa o quadro de maneira mais detida, verifica-se que o país conta com uma parcela substantiva de sua matriz energética constituída por fontes renováveis (hidreletricidade e biomassa), ao mesmo tempo em que, além da auto-suficiência em petróleo, estamos diante de uma situação extremamente promissora no tocante a novas reservas na chamada camada do pré-sal, na Bacia de Santos.
A construção de novas usinas hidrelétricas no Rio Madeira e de usinas termo-nucleares em locais que estão sendo definidos pela Eletrobrás revelam que num horizonte de cinco a sete anos o potencial de produção de eletricidade estará bastante ampliado. No curto-prazo existe a preocupação de uma carência que teria de ser atendida por usinas termelétricas a gás natural, o que implicaria num desvio desse energético que atualmente vem atendendo o consumo industrial e veicular. Certamente uma situação de carência seria desagradável, mas muito menos danosa que aquela verificada em 2001, quando o país viveu uma perspectiva de racionamento.
Ainda em relação a fontes renováveis, foi notável o desenvolvimento tecnológico experimentado na produção de etanol, com grande crescimento nas produtividades agrícola e industrial do setor canavieiro, ampliando as vantagens com que o país já contava no passado. É necessário destacar que esse esforço de modernização foi inteiramente realizado pelo setor privado nas últimas três décadas, o que mostra que o desenvolvimento tecnológico não é uma tarefa de curto-prazo, mas depende de persistência e de foco por parte dos diferentes atores econômicos.
O mesmo se pode dizer da agricultura brasileira, que tem batido recordes sucessivos na produção de alimentos e que conta com vantagens competitivas consistentes para manter o Brasil como grande produtor de alimentos numa perspectiva sustentável. Ainda existem áreas não aproveitadas para uso agrícola, o que permite ao país expandir substancialmente sua fronteira produtiva sem qualquer problema ambiental em relação à Amazônia.
Finalmente uma menção às novas reservas de petróleo e gás: certamente elas estarão em condições de exploração comercial num prazo mais ou menos longo, mas se constituem numa alternativa extremamente promissora no horizonte de sete ou dez anos à frente. Se confirmadas as notícias já veiculadas pela Petrobrás, o país deverá passar a se constituir num player extremamente importante no mercado de petróleo mundial. Aqui também cabe destacar o cuidado necessário para aproveitar, da melhor maneira possível, essa vantagem competitiva.
Em suma: o quadro internacional se agravou, mas as alternativas que se abrem para o país são bastante favoráveis. Do encaminhamento da política econômica de curto-prazo estão dependendo os resultados que poderão ser alcançados.

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