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domingo, 13 de setembro de 2026

Panorama do Mercado de Energia Elétrica — Edição 42 | 07 a 13 de setembro

Panorama do Mercado de Energia Elétrica
A rede elétrica entra em uma nova fase: conexão, controle e flexibilidade ganham protagonismo
Edição 42 — 07 a 13 de setembro de 2026

Editorial da Semana
A rede deixa de ser apenas infraestrutura e passa a ser parte do mercado
Durante muito tempo, a expansão do setor elétrico brasileiro foi tratada principalmente como uma questão de geração e transmissão: construir usinas, linhas e subestações para atender ao crescimento da demanda.
Essa lógica está mudando.
Nesta semana, a ANEEL colocou em consulta pública novas regras para conectar e operar geração solar distribuída, baterias, veículos elétricos e cargas controláveis. Pouco depois, abriu consulta para o primeiro leilão de transmissão que poderá contratar uma bateria como ativo da própria rede.
São movimentos diferentes, mas que apontam na mesma direção.
O sistema elétrico começa a incorporar recursos capazes não apenas de produzir ou consumir energia, mas também de modificar seu comportamento em função das condições da rede.
Isso aumenta a importância de conceitos como observabilidade, controlabilidade, flexibilidade e resposta da demanda.
A questão central para os próximos anos não será apenas quanto de energia o Brasil consegue produzir, mas como coordenar milhões de recursos conectados à rede, em diferentes níveis de tensão e com diferentes padrões de consumo e geração.

Mercado em Movimento
1. ANEEL propõe novas regras para conectar solar, baterias, veículos elétricos e cargas flexíveis
A ANEEL abriu a Consulta Pública nº 33/2026 para modernizar o Módulo 3 dos Procedimentos de Distribuição (PRODIST).
A proposta cria uma abordagem integrada para os chamados Recursos Energéticos Distribuídos (REDs), abrangendo geração solar, sistemas de armazenamento, veículos elétricos e cargas capazes de ajustar seu funcionamento de acordo com as condições da rede.
Um dos pontos mais importantes é a mudança de lógica regulatória: em vez de estabelecer regras exclusivamente pela tecnologia utilizada, a proposta considera como o recurso interage com a rede — se injeta energia, absorve energia ou consegue modificar seu comportamento sob comando.
A ANEEL também propõe requisitos de monitoramento, comunicação e resposta a comandos, além de requisitos de proteção, qualidade da energia e controle da potência injetada.
É uma mudança importante para o futuro da geração distribuída.
Uma residência com geração solar e bateria, por exemplo, poderá deixar de ser vista simplesmente como um consumidor que eventualmente injeta excedentes na rede. Passa a ser um recurso cujo comportamento pode ter relevância para a operação do sistema.
A consulta ficará aberta de 10 de setembro a 9 de novembro.

2. Baterias entram pela primeira vez como ativo da transmissão no Brasil
A ANEEL abriu a Consulta Pública nº 32/2026 para o Leilão de Transmissão nº 01/2027, marcado para 30 de abril de 2027.
O destaque é o Lote 5, que prevê a contratação de um sistema de armazenamento por baterias de 100 MW / 200 MWh, com tecnologia grid-forming, na região de Cruzeiro do Sul, no Acre.
Será a primeira contratação de baterias diretamente no segmento de transmissão do Sistema Interligado Nacional.
O projeto faz parte de um leilão que prevê R$ 12,9 bilhões em investimentos, 3.245 quilômetros de novas linhas e 1.386 MVA de capacidade de transformação.
A utilização da bateria no Acre é particularmente interessante porque mostra que o armazenamento começa a ser tratado não apenas como mecanismo para deslocar energia renovável, mas como uma solução de infraestrutura elétrica, capaz de contribuir para a confiabilidade do atendimento.
O contrato do lote de bateria terá duração de 18 anos, inferior aos 30 anos previstos para os demais lotes, justamente em função da vida útil dos equipamentos.
O movimento merece atenção porque pode estabelecer um precedente para a contratação futura de armazenamento como alternativa ou complemento a obras tradicionais de rede.

3. Curtailment ganha novo capítulo na Justiça
A Justiça Federal negou, em 11 de setembro, pedidos apresentados por associações de empresas eólicas e solares para garantir o ressarcimento integral dos cortes de geração — o chamado curtailment.
A decisão considerou que a ANEEL não extrapolou sua competência ao estabelecer os critérios para compensação dos geradores.
O tema é particularmente relevante porque o curtailment deixou de ser uma questão exclusivamente operacional.
Com o crescimento acelerado das fontes renováveis variáveis, os cortes de geração passaram a envolver risco econômico, contratos, remuneração dos ativos e segurança jurídica dos investimentos.
A decisão judicial não encerra necessariamente a discussão, mas acrescenta um componente importante ao processo de definição de como os riscos associados às restrições operativas serão distribuídos entre geradores, consumidores e demais agentes.
Há aqui uma questão estrutural: quanto maior a expansão de fontes renováveis conectadas ao sistema, maior será a importância de definir previamente quem assume o custo da energia que poderia ser produzida, mas não consegue ser entregue.

Regulação e Tarifas
ANEEL reorganiza sua agenda regulatória diante do aumento das demandas
A ANEEL aprovou nesta semana a primeira revisão da Agenda Regulatória 2026–2027.
A Agência passou de 59 para 54 atividades regulatórias, com cinco novas inclusões, nove atividades transferidas para 2028 e duas excluídas.
A revisão foi motivada, entre outros fatores, pela necessidade de priorização diante da quantidade de demandas e da disponibilidade limitada de recursos humanos.
A nova agenda concentra 25 atividades em Geração & Mercado, 16 em Transmissão & Distribuição, nove em Regulação Tarifária & Financeira e quatro em Eficiência Energética & Consumidor.
O movimento é importante porque revela uma característica pouco percebida do processo regulatório: a transformação tecnológica e institucional do setor está aumentando a quantidade de temas que precisam ser regulamentados simultaneamente.
Armazenamento, recursos distribuídos, abertura de mercado, transmissão, tarifas e novas formas de consumo passaram a disputar espaço dentro da agenda da Agência.

Geração e Expansão
Brasil adiciona quase 2 GW de capacidade em agosto
A expansão da matriz elétrica brasileira atingiu 1.968,37 MW em agosto, segundo a ANEEL.
Foram 20 novas usinas: 15 solares fotovoltaicas, três termelétricas e duas eólicas.
No acumulado de janeiro a agosto, a expansão chegou a 4.852,78 MW, com 91 novas usinas em operação.
As fontes solares responderam por 3.520,93 MW da expansão acumulada no ano.
Em 8 de setembro, a potência fiscalizada das usinas centralizadas chegou a 220.662,7 MW, dos quais 84,67% correspondem a fontes renováveis.
O dado reforça uma característica já bastante conhecida do sistema brasileiro, mas que ganha nova importância diante das notícias desta semana: a oferta de geração continua crescendo rapidamente enquanto a rede precisa evoluir para integrar e administrar essa nova capacidade.
O desafio passa, portanto, da simples expansão da oferta para a coordenação entre geração, transmissão, distribuição, armazenamento e consumo.

O Mundo
Sudeste Asiático se torna novo grande mercado para tecnologias chinesas de energia limpa
O Sudeste Asiático está se consolidando como um dos principais destinos das exportações chinesas de tecnologias de energia limpa.
Segundo análise da Reuters, os países da ASEAN gastaram mais de US$ 20 bilhões em produtos chineses de energia limpa em 2026, incluindo baterias, componentes de rede, veículos elétricos e equipamentos solares.
As importações de baterias para armazenamento chegaram a quase US$ 7 bilhões, enquanto as compras de painéis solares cresceram 90% em relação ao ano anterior.
O movimento chama atenção porque combina duas transformações: a rápida expansão da demanda elétrica em economias que ainda dependem fortemente do carvão e a crescente utilização de tecnologias chinesas para construir sistemas baseados em solar, armazenamento e eletrificação.
Para o mercado brasileiro, o fenômeno merece acompanhamento.
A indústria chinesa não está apenas exportando módulos fotovoltaicos. Está avançando simultaneamente em baterias, eletrônica de potência, veículos elétricos e equipamentos de rede — justamente os componentes que começam a ganhar importância também na transformação do sistema elétrico brasileiro.

Indicador da Semana
4.852,78 MW
Foi a expansão da capacidade instalada de geração elétrica brasileira entre janeiro e agosto de 2026.
Desse total:
O dado é importante não apenas pelo volume, mas pela composição: a expansão continua fortemente concentrada na fonte solar.

Acompanhamento
🔹 Recursos Energéticos Distribuídos
A Consulta Pública nº 33/2026 pode ser uma das discussões regulatórias mais importantes para a evolução da geração distribuída, armazenamento e mobilidade elétrica.
🔹 Armazenamento
Além dos leilões de reserva de capacidade já em discussão, agora surge uma segunda possibilidade: baterias contratadas como infraestrutura de transmissão.
🔹 Curtailment
A decisão judicial desta semana acrescenta uma nova dimensão jurídica ao debate sobre compensação dos cortes de geração renovável.
🔹 Mercado livre
As discussões sobre as Regras de Comercialização 2027 continuam em andamento e devem ser acompanhadas em paralelo à evolução da abertura do mercado.
🔹 Transmissão
O próximo leilão deverá ser observado não apenas pelos quilômetros de linhas contratados, mas pela introdução de armazenamento como parte da própria solução de transmissão.

Radar do Setor
ANEEL: consultas públicas avançam simultaneamente sobre recursos distribuídos, armazenamento e transmissão.
ONS: acompanhamento das condições de operação, carga, reservatórios e integração da nova geração.
CCEE: atenção à evolução do PLD e das discussões sobre as Regras de Comercialização 2027.
Geração: expansão permanece fortemente concentrada em solar fotovoltaica.
Armazenamento: baterias começam a ocupar três espaços distintos na discussão brasileira — reserva de capacidade, consumidor/recurso distribuído e transmissão.
Curtailment: o tema passa a combinar operação, regulação, economia dos contratos e judicialização.

💬 Participe
O setor elétrico está entrando em uma fase em que geração, rede, armazenamento e consumo passam a funcionar de maneira cada vez mais integrada.
Na sua avaliação, qual será o principal desafio para o mercado de energia elétrica nos próximos anos?
Participe com ideias e sugestões de temas.

Panorama do Mercado de Energia Elétrica
Edição 42 — 07 a 13 de setembro de 2026


Sandro Geraldo Bagattoli


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