Segue a edição referente à semana efetivamente encerrada em 20/09/2026, com o eixo editorial definido a partir das notícias identificadas no período.
Resposta da demanda, flexibilidade e novas exigências para a rede elétrica
Editorial da Semana
A semana evidenciou uma mudança importante na lógica de planejamento do setor elétrico brasileiro: a expansão da oferta continua relevante, mas a capacidade de modular o consumo, armazenar energia e operar redes mais inteligentes passa a ocupar posição central.
O estudo da EPE sobre resposta da demanda, a discussão sobre modelos de operação das distribuidoras e os novos desafios associados à conexão de grandes cargas indicam que a flexibilidade poderá se tornar um recurso tão estratégico quanto a construção de novas usinas e linhas de transmissão.
1. EPE estima potencial de 8,8 GW para a resposta da demanda no Brasil
A Empresa de Pesquisa Energética — EPE publicou, em 18 de setembro, uma nota técnica que estima em 8,8 GW o potencial técnico de resposta da demanda no Brasil.
A resposta da demanda permite que consumidores reduzam, desloquem ou ajustem temporariamente seu consumo em reação a sinais econômicos ou operativos. O recurso pode contribuir para diminuir picos de carga, reduzir a necessidade de contratação de capacidade adicional e melhorar a integração de fontes variáveis, como solar e eólica.
A EPE também propõe aprimoramentos regulatórios e de mercado para ampliar a participação desse recurso no sistema elétrico.
Análise: o dado de 8,8 GW é expressivo porque desloca o debate da flexibilidade exclusivamente pelo lado da oferta. Consumidores industriais, comerciais e agregadores poderão assumir papel mais ativo na operação do sistema, desde que existam mecanismos de remuneração, medição, comunicação e controle adequados.
2. ANEEL revoga outorgas de 500 MW em projetos solares da Sowitec
A ANEEL revogou, em 18 de setembro, autorizações relacionadas a projetos solares da empresa alemã Sowitec que somavam aproximadamente 500 MW.
A medida está relacionada à inviabilidade de continuidade dos empreendimentos dentro dos cronogramas regulatórios. A discussão ocorre em um contexto no qual a expansão da geração renovável enfrenta desafios crescentes de conexão, disponibilidade de rede, custos de implantação e condições de mercado.
O caso também chama atenção para possíveis diferenças regulatórias entre os procedimentos de conexão de cargas e de empreendimentos de geração.
Análise: a revogação não deve ser interpretada apenas como um evento empresarial isolado. Ela ilustra o aumento do risco de execução de projetos que obtêm autorização ou avançam no desenvolvimento sem que estejam suficientemente equacionadas as condições físicas, econômicas e regulatórias para sua implantação.
Em um ambiente de forte expansão da geração solar, a disponibilidade efetiva de conexão e a viabilidade comercial passam a ser tão importantes quanto o potencial energético do empreendimento.
3. ANEEL autoriza conexão de data centers com demanda de até 297 MW em São Paulo
A ANEEL autorizou a conexão à Rede Básica de projetos de data centers da Ascenty localizados em Campinas e Vinhedo, no estado de São Paulo. As cargas previstas poderão alcançar aproximadamente 297 MW até 2029.
As autorizações foram concedidas após a obtenção dos pareceres de acesso do Operador Nacional do Sistema Elétrico — ONS.
A expansão dos data centers acrescenta uma nova camada de complexidade ao planejamento elétrico, pois esses empreendimentos apresentam cargas elevadas, exigências rigorosas de confiabilidade e potencial de crescimento acelerado.
Análise: a conexão de grandes consumidores, especialmente data centers, reforça a necessidade de coordenação entre planejamento da transmissão, expansão da distribuição, disponibilidade de capacidade e requisitos de qualidade e continuidade. Também poderá ampliar a importância de contratos específicos, soluções de armazenamento e mecanismos de gestão da demanda.
A expansão dessas cargas ocorre simultaneamente ao crescimento de projetos renováveis, tornando mais importante a compatibilização temporal e espacial entre geração, consumo e infraestrutura de rede.
4. ONS deverá elaborar plano especial de segurança do sistema para as eleições
O Ministério de Minas e Energia solicitou ao ONS a elaboração de um plano especial para garantir a segurança do Sistema Interligado Nacional durante as Eleições Gerais de 2026.
O planejamento deverá considerar o primeiro turno, previsto para 4 de outubro, e eventual segundo turno, em 25 de outubro. A preocupação envolve a manutenção da segurança operativa e da continuidade do fornecimento em um período de elevada sensibilidade institucional.
Análise: embora a medida tenha caráter circunstancial, ela evidencia a importância crescente do planejamento de contingência em um sistema elétrico mais complexo, com maior participação de fontes variáveis, crescimento de cargas críticas e necessidade de coordenação entre agentes.
A preparação para eventos de grande relevância nacional também reforça o papel do ONS na articulação de medidas preventivas e na gestão de situações operativas excepcionais.
Fonte: MegaWhat — Governo pede plano especial para garantir segurança do sistema elétrico durante as eleições MegaWhat
5. EPE avança no planejamento de sistemas de armazenamento hidráulico
Em 15 de setembro, a EPE apresentou, durante seminário promovido pelo GESEL/UFRJ, o plano de trabalho para antecipar etapas do futuro procedimento competitivo de contratação de serviços prestados por sistemas de armazenamento hidráulico, incluindo usinas reversíveis.
A iniciativa está relacionada à Resolução CNPE nº 08/2026 e busca estruturar as bases técnicas e institucionais para uma futura contratação desses serviços.
As usinas reversíveis podem armazenar energia por meio do bombeamento de água para reservatórios superiores e posteriormente gerar eletricidade nos momentos de necessidade.
Análise: a discussão amplia o debate sobre armazenamento para além das baterias eletroquímicas. Sistemas hidráulicos reversíveis podem oferecer armazenamento de maior duração e serviços de flexibilidade, embora dependam de condições geográficas, ambientais, de licenciamento e de infraestrutura.
A diversificação das tecnologias de armazenamento tende a ser importante para atender necessidades distintas do sistema: resposta rápida, deslocamento intradiário de energia e armazenamento de longa duração.
O Mundo
Flexibilidade e armazenamento ganham importância na transição energética
A evolução dos sistemas elétricos em diferentes mercados indica que a expansão de fontes renováveis exige instrumentos complementares de flexibilidade. Entre eles estão baterias, resposta da demanda, redes inteligentes, interligações e novas formas de operação dos consumidores.
No Brasil, o potencial estimado de 8,8 GW para resposta da demanda e os avanços regulatórios relacionados ao armazenamento mostram que o debate já ultrapassa a simples expansão da geração renovável.
A tendência internacional é de maior integração entre consumidores, recursos distribuídos, armazenamento e operadores de rede. Esse movimento aproxima o consumidor do processo operativo e pode alterar a forma de contratação e remuneração dos serviços elétricos.
Indicador da Semana
8,8 GW — potencial técnico estimado pela EPE para a resposta da demanda no Brasil.
O número representa uma referência importante para avaliar quanto da flexibilidade do sistema poderá ser obtido por meio de ajustes no consumo, em vez de depender exclusivamente da expansão da oferta de geração.
Acompanhamento
- Regulamentação da resposta da demanda e definição dos mecanismos de remuneração.
- Evolução das discussões sobre armazenamento hidráulico e baterias.
- Critérios de conexão de grandes cargas, especialmente data centers.
- Impactos regulatórios e econômicos da restrição de acesso à rede para novos projetos de geração.
- Preparação operativa do SIN para o período eleitoral.
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Panorama do Mercado de Energia Elétrica — Edição 43 | 14 a 20/09/2026
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